A Máquina Que Faz Pensar – Conto

Uma fagulha de pensamento iniciou-se assim que a noite chegou. Era característica de criação espontânea que pairava invisível no ar e jamais poderia ser vista, mas sim sentida. Era como a eletricidade que viajava quilômetros inteiros na velocidade da luz até que atingisse a rede elétrica das residências em todo o mundo. Quem poderia explicar com clareza o que é a energia elétrica? Um físico, talvez, mas jamais uma pessoa comum. Isso era informação qualificada e exclusiva dos ''gênios'' da ciência; não sou gênio, longe disso, tenho apenas o poder da imaginação na palma das mãos e a vejo fluindo energeticamente por entre meus dedos enquanto escrevo essa história, que já existia no âmbito da imaginação e só precisou incitar coerência dos fatos para vir a luz no mundo real. Lembro-me de quando um bom amigo chegou para mim e indagou: ― ''Você escreve bons textos. Suas histórias são legais. Queria ver-te escrever algo sobre a 'transcomunicação instrumental', aposto que sairia coisa boa.'' ― lembro-me de ficar confuso de imediato e perguntar a ele do que se tratava tal coisa ― ''Isso é papo de jacaré!'' ― eu disse, e após dar uma bela gargalhada, esse meu amigo que desconfio eu, tem características bruxescas, explicou-me: ― ''É a ciência que estuda a capacidade de se comunicar com entidades espirituais por meio de equipamentos eletrônicos. Podendo ser uma televisão antiga, um rádio, computador ou até mesmo um celular. Eu adoro esses papos, sabe?'' ― E eu, que nunca antes tinha escutado falar de tal ousadia, respondi: ― "Sim, eu também. Vou escrever!'' ― E dessa forma a história que hoje estou elaborando em palavras, mas que já ganhara vida no momento que tive aquele dialogo especifico com esse meu camarada, passou a existir categoricamente através das letras. Escrever é um feitiço, sei disso e tu agora sabes também.

Iniciarei essa prosa dizendo que ela é uma moça relativamente jovem e que é até bonita. Apesar de seu estado de espírito dizer o contrário. O cabelo loiro desgrenhado está preso em um coque mal feito, penteado esse que é apropriado considerando suas vestimentas largas de cores apáticas e melancólicas, uma jaqueta cinza-escuro e calça larga preta. Naquele dia já passava da meia-noite e ninguém havia dormido naquela casa, ela andava feito barata tonta indo de um comodo a outro, todos eles com muito pouca iluminação. A moça havia preparado tudo para efetuar o que seria o ritual de comunicação, era algo estranho e assustador, mas caso funcionasse, seria a mais incrível das experiências e um alento para seu coração que há muito se encontrava tão machucado. Quando finalmente tomou coragem de iniciar os trabalhos, deslocou-se para a sala de estar onde mais cedo tinha posicionado uma televisão de tubo bem velha ― que fora de sua falecida mãe ― centralizada e de frente para o sofá. Naturalmente, ela estava ligada na tomada. Antes de acomodar-se verificou se as janelas estavam devidamente fechadas e constatou que nem todas estavam, uma delas (que ficava ao lado da porta) estava entreaberta e o vento gelado da noite entrava sorrateiramente fazendo as cortinas voarem de modo dramático. Quando foi para fechá-la percebeu pela primeira vez a beleza exótica daquela noite, cuja única iluminação eram as lampadas dos postes elétricos, todas as casas vizinhas estavam tomadas pela escuridão, a sensação era de que não havia ninguém mais vivendo naquele condomínio além da própria Eliza. Tudo que se ouvia era a força do vento batendo contra as paredes e árvores, ela sentiu que era um vento molhado e muito gelado, o tipo de brisa que anunciava a chegada de uma enorme tempestade; talvez fosse mesmo chover, dentro e fora da casa. Após isolar a casa de influências externar (ou foi o que ela pensou naquele momento) caminhou novamente na direção da televisão e finalmente iria iniciar a ''transcomunicação instrumental'' ― ''É apenas um jeito mais complicado de dizer que vou conversar com meu filho morto'' ― Disse ela, imediatamente sentindo um arrepio ao ouvir o som da própria voz ecoando no resto da casa que estava vazia. Mas, pela primeira vez em muito tempo, se lembrou de que não estava totalmente sozinha. Sentado no sofá, todo esparramado, largado e folgado, estava Kevin, seu filho mais novo que sofria desde sua concepção de paralisia cerebral. Elisa sabia que para efetuar o ritual precisava estar inteiramente sozinha, mas como seu filho era incapaz de pensar, ela imaginou que ele quase não contava como uma pessoa de verdade, além disso, ela não poderia despachá-lo para fora de casa sem mais, nem menos, estava frio lá fora. ― ''Sim, na prática, estou sozinha nessa casa. Sozinha, desde que meu outro filho morreu'' ― Esse pensamento ecoava em sua mente e principalmente em seu coração, quase todos os dias e noites.

Kevin nem sempre foi o filho único, seu falecido irmão, que também era seu gêmeo, chamava-se Charlie ― que por sua vez, não sofria de paralisia cerebral ― pelo contrário, era um menino ativo e inteligente, além de ser muito inteligente também. Era o filho favorito de Eliza. Fora atropelado enquanto estava brincando de correr na rua, o carro passou em alta velocidade (é bom frisar, mesmo que não tenha sido inteiramente culpa do motorista), nada sobrou dele; Eliza se lembra de, naquele momento, estar ocupada cuidando de Kevin, ambos estavam na varanda de casa. Ela sofreu muito, jamais superou a perda. E, com certo pesar no coração, ao ver seu outro filho esparramado no sofá feito um vegetal, ela desejou que Kevin tivesse morrido naquele acidente e não Charlie.

Mas não era verdade, o menino não era um ''vegetal'', ele sabia fazer algumas poucas coisas, às vezes levantava-se sozinho e perambulava pela casa, um pouco andando, um pouco se arrastando. Sempre com muita dificuldade. Ele não podia falar e comunicava-se através de sons inarticulados e pequenos gestos. Pouca coisa, mas que para ele representava grandes avanços.

― Meu bom garoto ― Disse ela, sentando-se na direção da televisão velha e inacreditavelmente grande, torcendo para dar certo ― Não se assuste Kevin, seu irmão vem para dizer ''oi''.

Ele não respondeu, talvez não tenha entendido, mas alguma coisa em seu olhar dizia que havia preocupação em sua mente, estava preocupada e nebulosa, talvez fosse apenas medo. Mas é certo que fosse todas essas coisas juntas.

― Que mente? Você não pode pensar, esqueceu? ― O comentário sarcástico e cruel provocou nela um estupor energético que ela não soube explicar. Não se arrependeu imediatamente, mas achou que era melhor não ter dito nada.

A pequena luz vermelha acesa no canto inferior do monitor indicava que a TV ainda estava funcionando (é incrível como os aparelhos mais velhos pareciam durar muito mais) bastou apenas pressionar o botão e ligar; feito isso, Eliza sentiu um enorme alívio quando a sala encheu-se de luz, ''não é nada bom ficar no escuro'', a imagem que se projetou na tela era de um programa antigo que prometia dramatizar pequenos curtas de terror, ela nem teria tempo ou interesse de perceber que era a história de uma velha senhora e uma sinistra boneca de corda, que prometia lhe oferecer verdades em troca de mentiras. Alguma coisa assim. Eliza imediatamente puxou o cabo da antena atrás do monitor, o desconectando, fazendo a imagem na tela se apagar, mas a mantendo ligada. Mantendo apenas a estática tradicional de televisores antigos iguais aquele, difusa e fragmentária. O barulho chiado irritante fez Eliza baixar o volume, deixando quase no mínimo, ela tinha a sensação de que se escutasse mais daquilo por muito tempo, ficaria surda. A estática, que inicialmente não apresentava qualquer coerência, aos poucos, foi tomando forma, eram pequenos fantasmas feitos de energia de cor preto, branco e cinza. A tela se apagava em alguns momentos e depois regressava ao mesmo que era antes. Após dois minutos nisso, Kevin se mexeu no sofá, coisa rara, mas aquela coisa toda provavelmente o estava assustando e o deixando inquieto. Eliza sequer percebeu, naquele momento estava extremamente concentrada e quase pronta para dar início ao ritual.

Nesse momento interrompo a narrativa, pois preciso informar ao leitor que não tenho o conhecimento necessário para elaborar a história da forma mais correta. Para começar, eu nem sabia na época do que se tratava a comunicação com entidades sobrenaturais através de tecnologia. Mas a história precisa ser escrita. Ela quer ser escrita. Então eu a escrevo. Mas informo que precisei telefonar para aquele meu amigo mencionado no início do texto, perguntei-lhe ― ''Ei, já entendi a teoria da coisa, mas preciso saber no que consiste a prática da coisa. De que forma isso é feito?'' ― Eu estava sentindo certo constrangimento de assumir minha própria ignorância, mas continuei ― ''Eu até poderia pesquisar na internet essa informação, mas tu quem és minha atual fonte de inspiração.''

E após longa pausa ele respondeu-me da forma esclarecedora como sempre fazia ― ''É muito simples, amigo, funciona como se fosse uma espécie de auto-hipinose, mas também é um tipo de meditação. Você irá tentar a comunicação com alguém de seu interesse utilizando o equipamento eletrônico de seu interesse, mas é como se fosse um telefone celular. Tu estás desse lado da linha e a pessoa (ou entidade) estará do outro lado atendendo a ligação. Eu utilizaria uma televisão, pois acho que é a melhor forma de comunicação nesse caso, ela não é comente sonora, mas também visual. A coisa do lado de lá poderá te responder utilizando imagens distorcidas de programas antigos, e também com estímulos sonoros, tudo isso mesmo estando sem o cabo da antena. Na verdade, é necessário estar sem o cabo. A estática irá mudar e sofrer distorção, de maneira nada natural. Assim você saberá que algo de estranho está acontecendo. Na verdade, é um indicativo de que o ritual está dando certo.'' ― A forma professoral com que ele me explicava essa e outras coisas me fascinava ― ''Entendeu, amigo?''.

Sim, eu havia entendido tudo. E assim foi feito. Suponho que Eliza tenha sido mais inteligente do que eu e foi pesquisar a fundo sobre essa temática antes de tentar elaborar qualquer coisa sobre o assunto. Dito isso, Continuarei a história de onde paramos;

― ''Charlie, você pode me ouvir?'' ― Ela perguntou, estava com a voz rouca e acanhada, pois também estava assustada, por mais que não admitisse para si própria. Mas não apenas isso, essa já era a décima ou vigésima vez que perguntava a mesma coisa para o televisor. Perdeu as contas de quantas vezes proferiu aquelas mesmas palavras. Embora ela soubesse que era assim mesmo que tinha que ser feito, era meditação, acima de tudo, consiste na repetição do ato como se fosse um mantra. E os mantras são poderosos quando verbalizados corretamente ― ''Charlie, a mamãe está aqui e eu preciso que você fale comigo nem que seja só uma vez.'' ―, porém, nada aconteceu. O televisor continuou repleto de estática, o mesmo de sempre.

― ''Filho, siga o som da minha voz, seja lá onde você estiver. Venha até aqui!'' ― Ela estava chorando agora, de maneira cansada e manhosa, já havia chorado muito desde que Charlie morrera e ultimamente parece que lhe faltavam as lagrimas, mas agora elas desceram com facilidade em seu rosto. Eliza sentia como se estivesse chovendo dentro de si. Enquanto isso, o menino Kevin estivera incomodado todo o tempo com o que sua mãe estava fazendo, claro, ele não compreendia inteiramente esse pensamento (nem mesmo o que estava acontecendo a sua volta, não inteiramente) mas ele sentia o incomodo o preencher, em sua limitada mente e principalmente em seu coração. Percebeu sua mão chorando muito bem a sua frente e ele não gostava nem um pouco de vê-la assim, com a cabeça baixa, cobrindo os olhos com as mãos. Foi nesse momento que algo se projetou na estática da televisão, uma forma que poderia ser humanoide, mas estava difusa demais para ser percebida. Eliza não percebeu, pois não estava olhando. Kevin percebeu, mas acreditou que era apenas coisa da sua mente, ele só estava vendo, porque, talvez, no fundo, ele desejava ver. Tanto quanto sua mãe ― Ele amava muito seu irmão.

Mas ele teve a sensibilidade de perceber que algo estava acontecendo, algo elétrico e não natural. Dava para sentir o ar pesando a sua volta. Ele pensou em algo metálico, não sabendo o porquê, apesar de que fosse muito natural o medo e a estranheza sentidos, uma vez que a televisão ligada em meio a sala totalmente escura (na verdade, a casa inteira estava com as luzes apagadas) estava fazendo com que o ambiente na totalidade ficasse muito assustador, quase medonho ― sem mencionar o fato de sua mãe estar a quase uma hora falando sozinha na sala vazia, desconsiderando inteiramente a presente do filho que estava vivo ― Eliza estava ficando catatônica e cada vez mais introspectivas, parecendo não perceber o que acontecia a sua volta. Kevin, mesmo com sua teórica incapacidade de pensar, tinha muito mais humanidade que Eliza. Ele sentia tudo e percebia tudo. Ela, que se julgava muito esperta, não percebia nada.

― ''Afinal de contas, qual de nós dois tem a mente não pensante da casa?'', esse pensamento quase foi inteiramente formado, Mas Kevin o perdeu no meio do caminho, não chegou a compreendê-lo, assim como acontecia com quase todas as outras coisas. Seu cérebro parecia não conseguir processar as informações que chegavam. Ele o esqueceu quase imediatamente, poucos segundos depois. Mas ele chegou a perceber outra silhueta tomando forma, agora foi com mais nitidez, porém foi tão rápido quanto da primeira vez. Eliza também percebeu dessa vez, assustou-se e quase se levantou. Mas continuou sentada, seu olhar estava confuso e assustado, acredito que internamente ela estava se perguntando se de fato imaginara aquilo ou se tinha mesmo avistado um menino aparecendo repentinamente na tela da televisão. Constatou finalmente que talvez não tenha visto nada, era sua mente lhe pregando peças, assim como Kevin havia constatado anteriormente (talvez não com o mesmo raciocínio logico) que ela só estava vendo porque queria ver. Olhou para Kevin e sentiu vontade de perguntar ao filho se ele também havia avistado algo, mas ela não fez a pergunta, pois sabia logicamente que o menino não poderia nunca lhe responder essa e qualquer outra coisa. Ficou com raiva de repente, sentia-se cansada e abatida.

― ''Porque estou insistindo nisso, afinal?'' ― Se perguntou, sentido-se ridícula e um pouco burra. Mas acredito que, no fundo, ela devia saber o porquê, pois até mesmo Kevin já estava sabendo (ou apenas sentindo), havia uma energia forte na casa, que Eliza não pode sentir no início, mas que agora dava para sentir em seu próprio corpo, os pelos dos braços estavam todos arrepiados, projetados para cima, devido à estática da televisão que se espalhou como fumaça pelo ar. Olhou em volta, carregada novamente de uma enorme expectativa e excitação, seu pensamento se voltou novamente para o televisor e ela finalmente percebeu que o volume estava muito baixo, precisava aumentar um pouco mais, anteriormente daria para escutar somente o barulho baixo da estática. Se Charlie estivesse falando com ela, não daria para escultá-lo.

― ''Ah, como eu sou burra'' ― Sentia-se mais ridícula do que nunca por não ter constatado isso antes, ― ''Que ideia foi essa de abaixar o volume da TV?'' ― Imediatamente agarrou o controle remoto e aumentou o volume o suficiente para escutar caso Charlie estivesse tentando se comunicar em palavra com ela, mas tudo o que escutou naquele momento fora o barulho ensurdecedor da estática. Nada de Charlie, por enquanto ― ''Charlie, se tu soubesses a falta que me faz.''

A madrugada chegou sem ela perceber e já era quase uma e meia. Mas ela percebeu que estava cansada, deitou-se no chão em cima do tapete e ficou olhando atentamente para o televisor durante um bom tempo, esperando algo diferente acontecer. Sem mais palavras, já que elas de nada adiantaram até agora. Passaram-se minutos até que seus olhos foram ficando cada vez mais cansados, pesados e sua visão ficou turva, ela passou a ficar longos períodos de olhos fechados para que sua visão voltasse ao normal. Após algum tempo nesse ritual do sono, ela adormeceu.

Kevin não adormeceu. Pelo contrário, ficou acordado observando atentamente a televisão, de alguma forma ele sabia que algo estava acontecendo, diferente de sua mãe, o menino sentia uma espécie de êxtase que sua mão era incapaz de sentir. Ele simplesmente sabia que a qualquer momento algo a mais iria acontecer. Foi quando uma voz de menino saiu da televisão, invadindo a sala silenciosa, exceto pelo barulho da estática, que a essa altura já parecia fazer parte do ambiente o preenchendo por completo. A silhueta estava novamente criando forma na tela, era claramente um garoto da mesma idade que Kevin, talvez um pouco mais novo. Ele parecia dançar conforme os chuviscos iam e vinham.

― ''Kevin...,'' ― Era uma voz metálica, elétrica, impossível de descrever com exatidão. Mas para Kevin havia algo de familiar naquela voz, pois era seu irmão quem estava falando. Falando de algum lugar dentro da televisão. ―''Kevin, venha até aqui! Sou eu, Charlie..., venha!''.

Ela se mexeu, seu corpo estava quase totalmente esparramado no sofá, pois já fazia algum tempo que ele não mudava de posição. Com algum esforço, ele deslizou pelo sofá indo até o chão, se arrastando daquele jeito que Eliza odiava tanto (por isso ela o deixava naquele sofá a maior parte do tempo e ele sabendo disso não saia de sua posição a menos que fosse muito necessário), e já que Eliza dormia naquele momento e não poderia vê-lo, ele decidiu que poderia sair do sofá naquele momento sem ouvir os gritos estridentes da mão ordenando que ele volte para seu lugar. Ele não entendia com exatidão qual era a diferença entre os braços e pernas, então os usava de forma semelhante para se locomover, de maneira totalmente desengonçada, mas eficiente. Demorou um pouco, mas ele chegou até o centro da sala bem de frente para a televisão. Sua mãe estava dentada logo atrás, agora dormindo um pouco mais profundamente.

― ''Não acorde ela, Kevin. Deixe-a dormir. Não é com ela que eu quero conversar. É com você!'' ― Charlie falava baixo e parte do que dizia era abafado pela estática, mas sua voz era clara e firme e Kevin, pela primeira vez na vida, não tinha dificuldade de entender algo, pelo contrário, com clareza ele compreendia o que seu falecido irmão estava dizendo, talvez porque de certa forma ele não estivesse somente sibilando palavras, mas falando também em sua mente e também através da eletricidade do ar. Charlie estava por toda parte e Kevin podia senti-lo. Arregalou os olhos com certa surpresa, mas também era um olhar de felicidade pura ― Sim, irmão, você consegue me compreender, é assim que funciona aqui do outro lado. Lá ninguém tem problema de cabeça. Nossa mamãe conseguir efetuar uma conexão entre aqui e lá. Mas precisamos ter cuidado para não interromper a conexão entendeu? ― Nesse momento, Kevin balançou a cabeça afirmativamente, ele entendeu ― ''Eu não respondi a nossa mãe porque não quero falar com ela, no início até achei que quisesse, mas mudei de ideia logo depois. Ela é horrível com você, Kevin. Eu vejo tudo, eu sinto. É somente contigo que quero falar, Kevin''. ― Nesse momento, Kevin esboçou uma expressão de curiosidade, medo e consternação. Mas também sentia felicidade por estar se comunicando com seu falecido irmão (e entendendo tudo que estava sendo dito) isso não era extraordinário? Ele o amava muito e nem pôde se despedir adequadamente, já que na época era incapaz de expressar em palavras a tristeza que estava sentindo. Sua doença mental era de fato uma merda, isso ele conseguia elaborar em pensamento. Pensara tudo isso numa velocidade incrível, pareceu a ele que estava ficando mais inteligente a cada minuto. Sentia-se energizado por uma espécie de corrente elétrica que não podia ser vista, apenas sentida. E ele sentia. Sim, de fato sua mãe havia conseguido abrir um portal para o outro lado.

― ''Como é possível isso?''.

― ''Não foi ela, Kevin, foi você! Você foi quem me chamou, a sua maneira. Você tem uma voz poderosa em sua mente, mesmo que não saiba disso. E eu a escutei. Caminhei na direção dela direto do cosmos para essa casa.'' ― Kevin agora sentia-se maravilhado. Queria dizer a Charlie o quanto estava feliz, o quanto sentia sua falta e o quanto era bom saber que Charlie continuava a existir em algum outro lugar, mesmo após a morte, mas não sabia como diria isso. Não podia falar com sua própria boca. Ainda não. ― ''Sim, eu sei que você está feliz, irmão. É bom saber. Mas precisamos ser breve, pois não é fácil manter a conexão. Eu gostaria de libertar você dessa vida horrível. Mas acredito que nada posso fazer em relação a isso'' ― Dessa vez Kevin não entendeu totalmente o que Charlie estava querendo dizer ''como assim me libertar?'', mas prosseguiu prestando atenção, pois era bom estar falando com seu irmão. Para falar a verdade, era bom simplesmente estar tendo uma comunicação com outra pessoa. Pura e simplesmente. ― '', Mas acredito que, talvez, tenha um jeito de resolvermos essa questão. Eu tenho uma mente brilhante, mas não tenho um corpo. Você tem um corpo, mas é incapaz de pensar.'' ― Charlie falava tudo isso em um tom amalucado de voz, estava maravilhado e até um pouco delirante ― ''Vamos trocar! Na verdade, seria mais como uma fusão, de raciocínio e matéria. Vamos fugir juntos e deixar ela sozinha! ― Kevin não compreendeu o que ele estava propondo, mas concordou de imediato, pois se lembrava que quando estava vivo, Charlie sempre sabia o que fazer e tinha as melhores ideias. E quase sempre fazia a coisa certa.

― ''Vamos trocar Kevin! É fusão! Vamos deixar ela sozinha, inteiramente sozinha!'' ― Sua voz era um sussurro baixo, mas indignado e agora estava um pouco mais lunático que antes. Tinha tom de voz infantil de Charlie, mas também havia algo a mais bem lá, no fundo, com muito chiado. Às vezes dava a impressão de que não era só Charlie quem estava falando. Em alguns momentos parecia até que eram lamurias de uma multidão inteira. Kevin estava assustado e desejou não ter mais aquela conversa, desejou repentinamente fugir, para longe da televisão-Charlie, para longe de sua mãe e para longe daquela casa. Queria apenas fugir.

― Você não entendeu, irmão, eu sei. Mas você irá compreender quando tudo estiver feito. Haverá fusão e tudo ficará bem. Confia em mim.

― ''E o que eu preciso fazer?'' ― Kevin queria perguntar-lhe, mas esse pensamento nem mesmo se formou em sua mente, foi apenas um resquício de dúvida que logo se perdeu. Mas ainda assim Charlie captou a pergunta, como uma antena parabólica faz com um sinal de TV.

― ''Apenas toque na tela com as mão e eu farei todo o resto!''.

E então, ele tocou na tela da televisão utilizando as mãos, com facilidade impressionante (era a energia lhe alimentando como se fosse bateria) e todos os chuviscos de estática que antes voavam difusos sem direção para lugar nenhum foram na direção das mãos de Kevin. A estática estava sendo atraída pela própria estática, agora parecia estar muito mais forte, pois era a energia de Charlie sendo passada para seu irmão, que a aceitava de bom grado. Todo seu corpo estava sendo invadido por um êxtase elétrico em abundância. Ele não sentia dor, mas coçava bastante e até queimava em algumas partes. Sua mente parecia queimar, suas pernas e braços também. Kevin e Charlie, agora eram uma coisa só, ambos dividindo o mesmo corpo e a mesma mente, levantaram-se rapidamente como quem leva um baita susto, levaram as mãos até o rosto fazendo uma careta de dor e surpresa. Charlie desejava gritar alto e forte, mas Kevin jamais havia feito isso antes, então ambos tiveram dificuldade em expressar o que estavam sentindo, era um momento Epifânio e inicialmente silencioso. Mas após um tempo o gripo finalmente saiu, bem grave e alucinado, que deve ter acordado a vizinhança inteira. Eliza, que até então continuava estonteada de sono e largada no chão, acordou de supetão e imediatamente percebeu que havia algo de muito errado acontecendo, pois avistou uma estranha criatura gritando e pulando na sala de sua casa. Tentou não gritar, mas foi inevitável, pois incoerentemente achou que um ladrão havia entrado na casa. O garoto pulava e também gritava, com as mãos cobrindo os olhos. Seu corpo inteiro estava tremendo, como se estivesse levando um intenso choque (talvez estivesse mesmo).

― ''O que é isso? ― Sibilou enquanto ainda estava grogue. Mas sua voz falou, tamanha era sua surpresa. ― ''Kevin, é você, filho? Eu não entendo. O que está acontecendo?'' ― Foi quando o garoto parou de grita. Eliza estava naturalmente confusa e desorientada, estava vendo seu filho Kevin pulando feito um atleta profissional, logo ele, que mal sabia limpar a própria bunda. Não tinha capacidade para fazer tal coisa. ― ''Eu não entendo. Como pode isso?''.

― ''Mamãe?'' ― Ele a encarou com lagrimas no rosto e uma expressão contraída ― ''Ah, mamãe, meu rosto está queimando. Queimando como brasas no fogo!''

― ''Você está falando? ― Eliza achou que podia estar sonhando, achou que talvez ainda estivesse dormindo ― ''Kevin, o que está acontecendo com você? Você se queimou como gordura ou algo assim?''

― ''Não sou o Kevin, mamãe. Sou Charlie no corpo do Kevin.'' ― Ela ficou em choque, não conseguiu dizer nada, apenas ficou encarando aquela coisa que tanto poderia ser seu filho vivo, quanto poderia ser seu outro filho que já estava morto (fazia certo sentido, ela havia passado a noite inteira chamando por ele) ― ''Eu estava dentro do tempo. Na eternidade. Lá é branco e infinito.'' ― Estava estasiada, sentindo um misto de medo e fascínio. Mal acreditava no que acontecia diante dos seus olhos. ― ''Você não é o Kevin? Charlie? Está no corpo do Kevin..., então funcionou! Eu nem posso acreditar que funcionou. Ah!'' ― Foi um grito de prazer.

― ''A mente do Kevin é como se fosse um papel em branco, eu a preenchi com meu desenho.'' ― Não sabendo se havia compreendido o que ele estava tentando dizer, ela apenas ignorou. Seguiu um impulso maternal que nasceu repentinamente em seu coração de forma quase animalesca, tudo o que ela quera naquele momento era dar um abraço em Charlie, mesmo que fosse no corpo de Kevin. Ela correu na direção do menino, que ficou pareceu esperando para receber seu último acolhimento materno, mesmo que sua mão fosse uma mulher desprezível, ainda era sua genitora. Charlie-Kevin ficou com pena do desespero, da solidão e da carência que avistou nos olhos dela, que agora estavam novamente cheios de lagrimas. Mas, no meio do caminho, Eliza tropeçou no que seria a tomada da televisão e de súbito, a energia foi cortada. A conexão espiritual fora repentinamente interrompida e uma enorme onda de energia foi expelida do corpo de Kevin. Houve um feixe de luz que pareceu ser desligado, como se tirado da tomada (e de fato foi), foi quando Kevin desmaiou.

Eliza demorou para entender o que tinha acontecido naquela sala. Tinha sido tudo muito rápido desde que ela despertou de seu breve cochilo. Pode ser que ela jamais entenda completamente, mas olhou confusa, desorientada e ainda sonolenta, e percebeu seu filho desmaiado no chão da sala, a TV desligada e a escuridão que havia tomado conta novamente do comodo, tendo somente ela para fazer-lhe companhia. Nem sinal de Charlie, nem sinal de Kevin. Naquele momento, ela estava sem os dois filhos.

E assim finalizo aqui essa breve história. Divirto-me sempre que escrevo qualquer coisa e vou descobrindo quase que em tempo real que destino terá meus personagens e dessa vez a surpresa foi mais que bem-vinda, pois orgulhoso estou de minha criação. Que final surpreendente e bom, trágico, respeitando a essência melancólica que há no texto desde sua concepção. A conexão foi interrompida e então eles já não tinham mais contato, show! Eliza, que tanto desejava ter seu filho de volta (ignorando quase que completamente a existência do pobre Kevin) foi castigada e ficou sem filho nenhum, brilhante, eu diria, perdoe minha falta de modéstia. Mas, minha felicidade durou muito pouco, pois quando apresentei o manuscrito para meu amigo fazer a leitura (eu queria que ele fosse o primeiro), simplesmente houve um estupor e eu, que muito esperava uma reação positiva partindo dele, fui surpreendido com sua interpretação negativa da obra.

―'', Mas o que é isso aqui, amigão?'' ― Disse-me, com sorriso sarcástico no rosto, apesar de sua boa vontade para comigo.

― ''Você não gostou?'' ― Indaguei, tímido e desconfiado. Eu que acreditava ter escrito minha melhor obra até então.

― ''Não é que eu não tenha gostado, eu gostei sim. É um bom texto.'' ― Ele olhava para mim com sinceridade, mas seu olhar voltava sempre ao manuscrito e depois de volta para mim. Fez isso várias vezes ― '', Mas, eu pensei e acreditei que você faria algo mais técnico e condizente com a realidade, sabe? A transcomunicação instrumental existe e é praticada por espiritualistas com seriedade, amigo.'' ― Eu ouvia aquilo com obediência, apenas concordando com a cabeça e tentando esconder a mágoa que fervia dentro de mim. ― ''Só que o problema não é exatamente esse, acho. A história se interrompe no auge dos acontecimentos, no calor do momento. A expectativa que se criou ao longo de todo o texto, simplesmente vai-se esvaindo ao terminarmos a leitura, um pouco decepcionante, eu diria.

― ''O final foi pensado para ser surpreendente ao mesmo tempo que deixa o leitor com um gostinho de quero mais. Meu estilo de escrita é esse… ''

― ''Ah, então você conseguiu! Mas eu queria muito saber o que aconteceu com o Kevin. Será que ele mantém a conexão com Charlie ou simplesmente voltará ao que era antes? E Eliza, o que acontecerá com ela nos dias seguintes? Como ela vai reagir a tudo o que viu e ouviu naquela noite?''

― ''Eu não tenho a menor ideia, amigo.'' ― Dito isso, percebo uma reação de surpresa e descrença em seu rosto, então continuo ― ''A história se escreve sozinha, pois ela existe no campo das ideias. Passou a existir assim que tu me destes a ideia de escrevê-la, é assim que funciona.

― ''Não estou entendo, não é você que a inventa como achar melhor? É só me dizer como ela continua caso você fosse escrever a continuação da cena, oras.''

Agora eu era quem estava sorrindo sarcasticamente, o cenário havia mudado muito rápido e eu é quem era o mais inteligente entre nós dois. Não posso negar que gostei disso.

― ''Veja bem, os personagens existem no concretamente no campo das ideias. Eu os invento aqui nesse mundo através das palavras, mas eles já existiam em algum lugar, antes, e foi tu quem me destes a energia necessária para elaborá-los quando sugeriu que eu fizesse esse texto. Mas a energia que me foi dada só foi suficiente para escrever exatamente o que acabaras de ler. Nada mais, nada menos. Quando estava escrevendo as últimas palavras, senti que algo se desconectou em minha mente e então eu já não sabia mais quais seriam os acontecimentos seguintes, por isso essa sensação de que o texto fora interrompido repentinamente, consegue compreender?''

― ''Consigo, mais ou menos. Mas tudo o que sei é que te acho genial''.

― ''Basta imaginar que haja uma pessoa escrevendo nossa história nesse exato momento, todos os detalhes de nossas vidas, como também as palavras que saem de nossas bocas, nossas ações e pensamentos. Imagine que repentinamente ele decida para de escrever. O que achas que acontecerá conosco a partir desse momento?''

― ''Bom, eu penso que ficaríamos sem rumo algum'' ― Ele ponderou ― ''Ou então teríamos livre arbítrio para fazer o que desse em nossa telha. Eu acharia bom.''

― ''Eu também, mas esse assunto é muito complexo, amigo, tentarei explicar melhor. É o seguinte...,''