Entrevero de Berinjela



Pensou em pegar mais alguns biscoitos de aveia do pote de argila em formato de porquinho que ficava em cima da bancada, mas mudou de ideia no momento que sua silhueta se fez presente no vidro escuro de seu forno — ''mais redonda do que deveria'', opinou em relação a si própria enquanto cruzou a cozinha apressada e corpulenta na direção das panelas fumegantes que chamuscavam no fogão. Levantou a tampa de uma das panelas e uma labareda de vapor subiu acima de sua cabeça com calor e velocidade impressionante, eram berinjelas cortadas em pequeninos e simétricos cubinhos caprichosos que Adriana passara a manhã toda fatiando na ponta da faca com orgulho e concentração, ela daria um jantar mais tardar e o prato a ser servido teria de estar pronto antes do por do sol, pois é servido gelado. Os cubos de berinjela estavam sendo cozidos numa velocidade impressionante e logo Adriana teria de desligar a chama da boca do fogão para que eles não passem do ponto. Não podem ficar moles demais, nem duros demais, nem pequenos e nem grandes demais, o entrevero de berinjela é feito a critério do cozinheiro e o critério dessa moça é certamente altíssimo. Estava preparando-se para receber Sulamita, sua ex colega dos tempos de escola que novamente surgiu em sua vida devido a uma casualidade do destino prosaica e nada extraordinária, elas se esbarraram por acaso na hortifrúti do supermercado ''Silva e Oliveira'', o mais próximo de sua casa. Adriana, que detesta longas caminhadas, sempre preferiu fazer suas compras por ali mesmo, embora, o supermercado ''Boas Novas'' fosse mais barato e duas vezes mais higienizado, porém, ficava em outro bairro e ela teria de pegar um ônibus para chegar até ele sempre que fosse fazer suas compras semanais. A outra alternativa seria ir andando. Adriana não gostava de nenhuma dessas opções. Considerava-se uma cozinheira de mão cheia e fazia questão de ostentar sua dispensa sempre farta, mas para isso era preciso ir às compras com mais frequência do que ela gostaria, pois, apesar de morar sozinha, comia por dois e seu estoque de alimentos acabavam num piscar de olhos. Foi numa dessas andanças pelo supermercado que a voz familiar chegou aos seus ouvidos num rompante inesperado quebrando monotonia monossilábica que Adriana gostava tanto de preservar.
— Mas que coincidência, Adriana! Nem acredito que é mesmo você — Sulamita vociferou em voz alta e todas as outras senhoras que também estavam repondo seus estoques de frutas e verduras da semana olharam com certa surpresa e curiosidade, uma delas, nada simpática, pensou — '', Mas porque gritam tanto essas duas?'' balançou a cabeça duas vezes e voltou a fazer suas compras.
— Sulamita. Oi... mas que surpresa em te ver por aqui! — Adriana não parecia surpresa em ver sua velha amiga, mesmo que já não a via fazia pelo menos uns treze anos, desde que elas terminaram o ginásio e tomaram rumos diferentes na vida, ela parecia tão somente consternada, avaliava a presença da moça de cima a baixo como se para acreditar que ela estivesse mesmo bem a sua frente e que nada daquilo era um delírio de sua cabeça — O que faz por aqui? Nunca te vi por essas bandas — Ela sorriu sarcástica e divertida — a minha banda.
— Ah, menina, nem te conto, papai faleceu recentemente e sua casinha aqui no bairro ficou para mim de herança. Me mudei semana passada e continuo me habituando, pois já não vivia nessa cidade desde que terminamos o ensino médio, você sabe, fiquei morando com a mamãe após a separação dos meus pais.
— Ah, sinto muito, eu gostava muito do Sr. Heliberto. Soube de sua morte e fiquei imediatamente deprimida. Era um dos moradores mais velhos do bairro, quiçá da cidade inteira. Foi um dos primeiros a chegar.
— Sim, sim. Papai viveu muito e muito bem, coitado. Agora descansou. E eu fiquei com sua casinha a duas quadras daqui.
— Só com a ''casinha''? — Adriana perguntou, tinha um pouco de ironia em sua voz e com razão, a casa que o velho Heriberto morava não era nada pequena, ao contrário, era um enorme sobrado de quatro andares feita toda de tijolos a moda antiga e tanto a parte da frente quanto a parte de trás exibia um enorme quintal cheio de árvores frutíferas e flores coloridas, uma piscina de tamanho médio nos fundos e na frente uma garagem dupla com duas picapes ultimo ano. Heriberto havia sido militar na juventude e recebia uma boa pensão de aposentadoria — Eu pergunto porque sei que ele era dono de muitas casas de aluguel espalhadas pelo bairro.
— Ah, sim. Herdei também as casas de aluguel do meu pai, na verdade, fiquei com tudo que era dele, sou filha única, né... e mamãe já estava separada dele há décadas. Eu fiquei com a maior fatia do bolo, digamos assim — Ela deu uma risada estridente e um tanto forçada que encheu Adriana de nostalgia, era essa a risada que Sulamita sempre dava quando contava suas piadinhas sem graça durante o intervalo da escola (era quando ficavam juntas na maior parte do tempo, pois havia períodos em que ficavam em turmas diferentes) Adriana costumava rir junto por educação e também por imposição, pois era Sulamita quem pagava o lanche que elas comiam, recebia uma boa mesada do pai e pelo visto, mesmo depois de tantos anos, continuava a receber. — ''Ela não mudou em nada'' — pensou Adriana com certa indignação disfarçada, odiava o fato de Sulamita nunca admitir que era uma garota mimada e privilegiada, que tentava sempre diminuir seus privilégios em dicotomias sem sentido proferindo palavras no diminutivo, quando, na verdade, tudo o que ela tinha era grande, enorme, em abundância, a ''casinha'' mencionada por ela na conversa era, na verdade, um casarão, e ela omitiu que recebera pelo menos cinco ou seis casas de aluguel que pertenciam ao pai, além de que, é logico pensar que ela provavelmente estava recebendo a pensão que é vitalicia para filhas de ex militares. Adriana disfarçou seu ódio e fingiu sentir amor.
— Mas que ótimo! É sempre bom reencontrar uma velha amiga, ainda mais que veio para ficar. Deveríamos marcar de almoçarmos juntas. Ou um jantar. Qualquer coisa.
— Eu acho ótimo. Mas eu sou uma temeridade na cozinha, Adri, não sei fritar um ovo sem deixar queimar. Já você sempre teve aptidão para culinária, me lembro muito bem. Que tal me receber em sua casa?
— Pode ser, seria divertido.
— Você faz o prato principal e eu levo a sobremesa. Mas terei que comprá-la, claro. Eu não saberia fazê-la.
— Nós temos uma ótima confeitaria aqui no bairro. Podemos ir caminhando até lá para que você aprenda o caminho e assim vamos conversando e botando o papo em dia.
— Sim, acho ótimo, é bom que desempacamos o corredor do supermercado. Estamos atrapalhando o tráfego. Melhor sairmos do caminho antes que nos expulsem — Sulamita soltou mais uma de suas risadas excêntricas e Adriana achou mesmo que seria uma boa ideia elas saírem daquele estabelecimento o mais rápido possível, estava começando a ficar receosa de ser vista por outras pessoas enquanto conversava com essa moça que sabia como ninguém constranger a todos com seu espontâneo e irritante falatório.

Azeitonas, passas, tomates e castanhas, cortadas em cubinhos semelhantes aos pimentões cuboides que agora Adriana colocava no recipiente sobre a mesa. Suas mãos cheiravam a cebola, sabendo ela que o cheiro ficaria grudado em seus dedos o resto da semana inteira, demoraria a sair. Certa vez em um programa de TV sobre o reino predatório animal, ela viu uma notícia que a deixou abismada, o rapaz que apresentava o programa dizia algo sobre algumas partes de nosso corpo pegar o gosto e o sabor de algumas especiarias por uma razão muito simples, somos basicamente feitos de carne e a estamos temperando quando entramos em contato com certos temperos. Podia agora sentir o sabor das coisas misturando com seu próprio sabor. — 'E que sabor seria esse?' ela se perguntou, enquanto cortava o alho em pequeninos pedaços para por no fundo da forma, assim eles ficariam crocantes e dariam um sabor todo especial que lhe parecia apetitoso a seu paladar. Já desligara o fogo que deu a fervura necessária para cozinhar suas berinjelas, preparava-se para finalmente começar a confecção de seu entrevero, para cada um dos ingredientes Adriana tinha uma memória a recordar, transpassando para o alimento, vertentes de seus sentimentos mais íntimos pautados por questões mal resolvidas dentro de si mesma e que agora ela muito queria colocar para fora. Foi trabalho confeccionado desde muito cedo, ainda que inconscientemente e talvez fosse uma questão puramente biológica, mesmo que psicológico: o suor em seu rosto parecia salgado demais e nada agradável, poderia desandar o prato. Seus cabelos loiros desgrenhados projetavam fios dourados oleosos em demasia e não apetece a ninguém berinjelas cozidas carregadas de gordura, mas o pior, talvez, fosse a vermelhidão em seus olhos, supôs que a alta temperatura de sua cozinha não lhe tenha feito bem naquela tarde e carregou seus olhos de uma vermelhidão apimentado, e o que antes já estava salgado, agora então é que ficaria insuportável de sabor, pimenta no dos outros nesse caso não seria refresco. Recompôs-se dentro do possível da imersão indesejada que estivera mergulhando involuntariamente nos últimos minutos, desejava que seu prato principal fosse uma boa pedida, pois queria receber Sulamita da melhor maneira possível em sua casa; rapidamente, outro episódio catatônico a pegou num rompante de amargura e ela sequer era capaz de compreender direito o porquê de tamanha reflexão, mas concluiu que o sentido literal da palavra se fez verdadeiro em seu pensamento a pegando de surpresa — ''Recebê-la em sua casa'' — Literalmente, pois morava de aluguel nesse casebre de três cômodos e um banheiro, seu antigo senhorio chamava-se Heriberto e acabara de falecer, deixando para sua filha todos seus bens, incluindo a casa que Adriana chamava de lar. Ela já sabia dessa informação quando encontrou Sulamita no supermercado, claro, recebera uma notificação e sabia que teria de pagar seu aluguel diretamente para a única herdeira do imóvel. Mas recebeu essa informação com toda calmaria e normalidade que seria comum de qualquer outra pessoa sentir não fosse pelo repentino estupor que a atingiu logo depois e que demorou a ir embora. Adriana tinha episódios de ficar fora da realidade comum que todos possuem acesso e passa a ficar inerte em sua própria realidade. Aquela que se fez real em sua cabeça e que seguia sua própria lógica.

O entrevero também segue sua própria lógica. Adriana sabe confeccioná-lo, pois aprendeu essa receita com sua avó materna, Hortência, que gostava de fazê-lo por ser um prato relativamente econômico e que rendia muito. Alimentava-se dele a semana inteira e lambendo os beiços. Achava-o delicioso. Em tese não há receita correta que faça do entrevero um prato de alta gastronomia, para cada pessoa há uma versão distinta e uma nova maneira de prepará-lo e um entrevero jamais ficará semelhante a outro, é individualidade de composição e essência primordial humana. Dependendo de quem faz o alimento, ele pode ter sabor de alegria ou de derrota. Hortência preparava a melhor comida do mundo na opinião de Adriana, era saborosa e com requintes de sofisticação, apesar dos poucos recursos a que se tinha acesso na época, moravam elas duas sozinhas em um barraco com goteiras e cheiro de alecrim fresco (diretamente da horta repleta de ervas variadas plantadas no fundo do quintal), cujo perfume inundava todo o ambiente e o fazia ter mais calor humano em meio a pobreza tão evidente e dolorosa ao coração de Adriana. Mas era de se admirar a avó prendada que a alimentou tão bem durante tantos anos, trabalhou em restaurantes e casas de família desde muito nova e apesar de tantas humilhações sofridas de gente esnobe, aprendeu diversas receitas, truques de culinária, em geral, tornou-se cozinheira de mão cheia. Elas não tinham matéria-prima suficiente para Hortência exibir todos seus dotes culinários, mas o pouco que era feito naquela casa, era sempre feito com muito capricho e esmero: qualidade essa que Adriana herdou e que em seu íntimo a fazia sentir-se orgulhosa, pois era coisa que o dinheiro não poderia comprar de jeito algum. Sulamita até podia ser mais abastada materialmente, mas a teoria na confecção de um delicioso entrevero de berinjela, ela não saberia jamais, nem se tentasse muito. Mas tinha esperança que sua sobremesa fosse ao menos apetitosa. A comprou na confeitaria mais bem quista do bairro. Adriana tinha lhe mostrado o caminho, pois adorava particularmente as sobremesas feitas lá. Ambas saíram juntas do supermercado e decidiram dar uma caminhada para que a conversa pudesse continuar. Na verdade, Sulamita decidiu que seria assim e Adriana apenas obedeceu. Como era nos velhos tempos.
— Eu serei senhoria de uma dezena de casas de aluguel nesse bairro, Adri, posso ficar sem trabalhar pelos próximos vinte anos se eu quiser.
— Muito bom, Su. É a vida que qualquer pessoa normal pediu a Deus — Adriana suspirou fundo, mas sem deixar aparente que era um suspiro de imenso desgosto — Você já conheceu todos os seus hóspedes?
— O quê? Não, nem pensar. É muita gente para conhecer em tão pouco tempo. Acredito que todos eles saibam que papai faleceu e que estão sob nova gerência e isso despensa maiores explicações. Mas, sim, terei que ter alguma formalidade de me apresentar para cada um deles e claro, conhecer suas casas. — Ponderou — Minhas casas.
— Ah, sim. Você deve receber um bom ordenado todo mês desses aluguéis. Já pensou no que vai fazer com essa dinheirama toda?
— Eu não tenho vocação para ser madame, Adri, você sabe disso. Vou usar boa parte para manter em dia a manutenção dos meus imoveis. Eu não tenho certeza se papai cuidava direito dessa parte, mas acredito que sim, de qualquer forma terei que manter o padrão. Só espero que todos eles paguem direitinho o que me devem. Não gosto de ficar no beiço, mas também não tenho talento para agiotagem barata. Não vou ficar cobrando a dívida de ninguém.
— Bom, eles eu não sei, mas eu pago meu aluguel em dia.
Nesse momento Sulamita olhou para Adriana com olhar questionador, pois de início não entendera o comentário da amiga. Mas logo matou a charada e abriu um largo sorriso de quem recebe uma ótima notícia. Ambas pararam no meio da rua, era um dia particularmente tranquilo e o tráfego de carros no bairro era quase zero.
— Não acredito amiga, você será um dos meus 'condôminos'? De verdade mesmo? — Ela falava como se fosse uma colegial descobrindo que o garoto mais bonito da escola respondera positivamente a sua paquera. Era um tom de voz infantil e, ao mesmo tempo, arrogante, que deixou Adriana bastante irritada.
— Sim. Eu aluguei uma das casas de seu pai, isso já tem alguns anos. Pagava o aluguel em dia para ele e agora terei que pagar a você.
— Não acredito. Isso é uma loucura né!? Se bem que faz sentido, você nunca saiu do bairro nem quando terminou o colégio e meu pai sempre foi dono de boa parte disso aqui.
— É. Loucura. Depois que minha avó morreu tive que vender o barraco que morávamos e me mudar para uma casa mais próxima do centro. Com o dinheiro da venda fui pagando os primeiros aluguéis e quando consegui trabalho ficou tudo mais fácil.
— Meu Deus, Adri. Você vendeu uma casa própria para ir viver de aluguel, como foi isso?
Adriana lançou um olhar fulminante para Sulamita que era quase cortante, a amiga percebeu e recuou um pouco, talvez entendendo que tivesse falado uma grande besteira, mas que era tarde demais para voltar atrás.
— Nosso barraco ficava afastado de tudo e para mim ficava muito difícil de conseguir trabalho. Achei que fosse melhor vendê-lo para assim ficar mais perto do centro comercial. Era isso ou morrer de fome, Su.
— Ah, entendo. Que bom que deu certo, amiga!
A caminhada continuou, mas agora em poucas palavras. Elas conversavam coisas prosaicas somente e nenhuma delas tocou no assunto sobre trabalho e dinheiro para evitar maiores constrangimentos, foi coisa intuída do tipo que se percebe no ar, entre elas não deveria haver esse tipo de conversa, pois nisso eram incompatíveis.
— Bom... chegamos, aquela é a confeitaria que falei. Eles fazem uma torta de morangos que é deliciosa. Mas custa 32 reais a fatia.
— Eu vou comprar essa torta e levar para o nosso jantar, Adri. Dinheiro não está mais sendo problema. — Era um pequeno sobrado bem aprumado que chamava atenção por ser muito colorido, predominando as cores azul e rosa, por dentro a decoração era delicada e nos mostruários exibiam bolos e tortas de todos os sabores que pareciam muito apetitosos. Sula entrou. Adriana preferiu ficar esperando do lado de fora. Conhecia todas as funcionárias que trabalhavam no local e não queria ficar de conversa com elas enquanto estivesse na companhia dessa pessoa que agora desembolsava 256 reais em uma bendita torta. Talvez Adriana fosse incapaz de perceber que Sulamita não era mal intencionada, somente equivocada e com uma alienação gigantesca em relação ao que ela tem e ao que os outros não têm. A odiou mais do que nunca naquele momento e continuaria a odiar pelos próximos momentos que passariam juntas, mesmo que em encontros fúteis e até divertidos, onde Adriana esconderia seus verdadeiros sentimentos atrás de um sorriso amarelo e um bom diálogo. Mas por dentro ela certamente estaria borbulhando em uma intensa mágoa de sabe-se lá o que; o problema de Adriana talvez fosse Hereditário.

A receita é uma herança de família que foi sendo passada de geração em geração, mas há também liberdade criativa para elaborá-lo com o mínimo de sua personalidade e ao encará-lo com olhos acrimoniosos, Adriana enxergou diante de si mesma o próprio reflexo de sua alma que tanto se escondia com vergonha e medo de expor-se aos outros e ser julgada uma pessoa completamente amargurada. Mas que naquele momento estava sendo servida numa cumbuca de vidro e logo seria degustada. Dominou e travou o que seria o nascimento de uma crescente sensação de desprezo que estivera adormecida dentro de seu coração e que agora estava pronta para despertar com toda força quanto fosse possível. Pensou por um momento que aquele jantar era o melhor que ela poderia oferecer a alguém, mesmo sabendo que, se qualquer pessoa a tivesse assistido confeccionar o prato principal, não iria querer comê-lo por achá-lo nojento. Mas sua aparência era normal, comum e prosaica, uma deliciosa opção vegetariana bastante colorida, pois foram muitos os ingredientes colocados ali para incrementar a berinjela que não tinha muito sabor. Adriana optou por não usar carne, pois achou de mal gosto cortar em pedaços o melhor de sua reserva material quando já tinha dado tanto de si mesma naquele jantar. E mesmo assim estava com a sensação de não ter sido boa o suficiente; decidira guardar um pouco para si mesma o mais caro de seus ingredientes, pois haveria outros jantares nos dias que viriam e certamente estaria sozinha novamente, cozinhar para mais ninguém além dela própria era o que mais gostava de fazer. É por isso que caprichava sempre. Mas como dessa vez estivera na cozinha preparando algo especificamente para Sulamita, pensou que não faria mal um entrevero sem carne ou qualquer outro tipo de proteína.
— Para quem é bacalhau basta! — disse ríspida para a casa vazia, que estivera sempre tão preenchida de sua persona que a sensação era de superlotação, Adriana vivia em permanente processo de autofagia em tudo o que fazia, vestia e comia. Mas agora estava oferecendo generosas parcelas de sua própria essência a outra pessoa e isso trouxe-lhe certo alívio que poderia ser apenas momentâneo, mas achou que o sentimento seria perpetuo caso Sulamita lambesse os beiços daquilo que fosse lhe servido.

O crepúsculo do luar estava nascendo no horizonte na medida que o dia ia se esvaindo, foi esse o prenúncio de que Sulamita estava para chegar. Adriana olhou pela janela antevendo sua colega descendo as escadas e caminhando pelo corredor carregando a torta de morangos nas mãos. Isso ainda não tinha acontecido, mas aconteceria em breve e ela teria de estar preparada, pois sua aparência era lastimável e odiaria dar motivos para que Sula pudesse fofocar dela para suas outras amigas de classe média alta — classe essa da qual Sulamita pertencia e Adriana sempre invejou — odiava-se por nutrir dentro de si esse sentimento tão repugnante e pior ainda sendo direcionado a uma pessoa que jamais lhe fizera mal. Mas acontece que invejar aquilo que não se tem sempre fora inevitável e Adriana quase considerava isso um de seus passatempos mais estimados. Além da culinária, costura e bordado, era especialista em desejar o que era dos outros. Talvez fosse essa a antipatia natural que sentia pela pessoa que viria para o jantar, mesmo que genuinamente a considerasse insuportavelmente alienada e incapaz de compreender de que existem outras pessoas no mundo — gente menos favorecida e não contempladas com o privilégio de ser medíocre — acima de todas essas coisas existia um sentimento que era quase tão venenoso quanto o entrevero que logo seria degustado e apreciado, era a vontade quase que inconsciente de ser e estar no corpo de Sulamita. Não somente agora, mas também antes, quando foi uma colegial bem nascida enquanto que Adriana não passava de uma porca a quem Sula atirava suas pérolas.
— Atirarei eu em ti minhas pérolas, Sula, espero que goste — Adriana disse em voz alta, divertindo-se, pois ela própria achou que estava parecendo uma louca por falar e pensar coisas assim. Mas não se importou, continuou — pérolas de baixa renda para a porca mais fresca do curral. Soltou uma gargalhada anasalada, ria com tanta vontade que até babava pelas beiradas da boca, de dentro de sua garganta saiu um ronco que ela fez questão de puxar para dentro e engolir de volta, fazendo com que o som saído de suas entranhas fosse grotesco. Adriana estava mais transparente do que nunca e ela de fato era repulsiva. Mas achou que um banho iria amenizar um pouco isso; a tornando mais limpa, se não por dentro, então teria de ser por fora.

Já era noite e a brisa noturna chegou para refrescar aquele dia que havia sido muito quente e abafado. Adriana saiu de seu banho sentindo-se revigorada, vestiu-se com um belo vestido longo bordado, de cor verde limão e estampado com bonitas flores coloridas, amarrou os cabelos recém lavados num coque dourado em formato de espiral e poupou-se de maquiagem, pois achou que naquele dia não estava precisando utilizar máscaras, queria mostrar que conseguia ser bonita, mesmo sem utilizar de artifícios supérfluos que Sulamita tanto gostava de exibir em imensas quantidades. Isso ela lembrava como se fosse hoje, Sula sequer usava todos os acessórios de embelezamento que comprava, adquiria-os apenas pelo prazer de poder comprar e ter um estoque em mãos. Por outro lado, Adriana tinha que utilizar seu único batom em finas películas para economizar o produto, pois só poderia comprar outro no próximo semestre do ano, isso se tivesse algum sobrando. Hoje em dia ela já não tinha mais problemas financeiros, ao menos, não tão urgentes quanto os que ostentava em gigantescas proporções durante sua sofrida juventude, mas a vida regrada em economizar o almoço para ter de comer na janta lhe deixou cicatrizes que jamais foram curadas e ela tinha consciência de que estava despejando suas mágoas em outra pessoa (que nada tinha a ver com suas frustrações, por mais que as tenha incitando, mesmo que sem querer), mas ela não ligou e nem tinha a intenção de mudar. Pois se Sula tinha o direito de ser uma patricinha arrogante de merda, Adriana também tinha o direito de ser exatamente o que era, uma pessoa detestável. Mas isso ela tratou de esconder a sete chaves, pois queria causar boa impressão e Sulamita acabara de bater em sua porta e estava carregando uma deliciosa torta de morangos.
— Você não morre mais, hein. Eu estava pensando em você agora mesmo — Adriana abriu a porta com um sorriso simpático no rosto e uma alegria quase contagiante, ela tinha colocado a melhor de suas muitas máscaras.
— Espero que pensando o melhor de mim — Sulamita ficou um pouco surpresa com a repentina alegria da amiga, mas resolveu embarcar indo para o mesmo caminho, também exibindo um sorriso simpático — Olha, eu trouxe a torta e espero que seja tão gostosa quanto você disse que era, pois ela me custou os olhos da cara.
— Bom, eu pensei que dinheiro não fosse problema para você — Disse descontraída, em tom de piada.
— Ah, sim, claro. Mas eu ainda não estou maluca para ficar rasgando dinheiro, né, prefiro gastar somente com o que vale a pena.
Ela entrou, sentindo-se inteiramente a vontade sem que Adriana precisasse pedir. Vestia uma calça jeans, blusa preta e um casaco de couro que parecia ser verdadeiro — ''Essa deve ser uma das coisas que vale a pena ser comprada'' — pensou Adriana, enquanto observava a amiga tirar o casaco e jogar no sofá como se nada fosse, sentou-se no sofá da sala e passou a olhar em todas as direções ao mesmo tempo, como se estivesse analisando, julgando, entendendo.
— A decoração da sua casa é muito interessante, Adri.
— Obrigada.
— Mas talvez tenha muito excesso de informação.
— Como assim?
— Bom, eu não quero ofender, mas eu estou me sentido em um daqueles antiquários de venda de coisas velhas — Deu uma risada em notas finas que doeu nos ouvidos de Adriana. E apesar do comentário indelicado, ela não estava mentindo. A casa de Adriana exibia uma profusão de objetos de porcelana em formatos de animais colocados em prateleiras em todas as paredes, onde não havia dessas prateleiras, tinham quadros dos mais variados tipos que seguiam um padrão estético, ou eram girassóis vermelhos e amarelos plantados em vasos de barro, ou jardins exageradamente grandes com as mais variadas flores plantadas por toda parte, ou eram fazendas e casebres velhos do tipo que se vê em panfletos de testemunhas de jeová. Quadros terrivelmente bregas. As cortinas nas janelas eram roxas, o tapete no chão da sala vermelho vinho e as paredes pintadas de amarelo. Uma mistureba de cores que estava provocando em Sulamita uma pequena dor de cabeça, mas isso ela não comentou porque não queria ser ainda mais indelicada do que já tinha sido. No centro da sala havia uma pequena mesa de madeira e em cima dela mais animais de porcelana, elefantes, girafas, leopardos, cobras e gatos. Em todas as direções e fazendo poses animalescas.
— Eu li numa revista que animais de porcelana são elegantes, então eu quis fazer uma coleção. Tenho muitos aqui na sala e no quarto também. Na cozinha não, porque o vapor e a gordura poderia estragar as peças. — Disse isso com certo acanhamento que pegou a si própria de surpresa. Sentia-se ridícula por ter desejos tão excêntricos em relação ao consumismo desenfreado. Até nisso Sulamita conseguia ser melhor e mais equilibrada.
— Bom, só espero que os quadros não estraguem as paredes, sabe? Depois é muito trabalhoso para consertar. — Dessa vez foi a vez de Sulamita de soltar um comentário áspero em tom de brincadeira. Mas Adriana relevou.
— Ah, não se preocupe, suas paredes ficarão bem. Eu pretendo entregar a casa impecável caso eu resolva sair daqui.
— Pelo amor de Deus amiga não vá levar a sério isso que eu falei, hein. Foi apenas uma brincadeira.
— Ah, sem problemas.
— E depois, você não está pensando em sair daqui, está? Agora que voltei e estarei morando aqui perto seria muita falta de sorte se você resolvesse ir morar em outro lugar.
— Eu gosto daqui. É confortável e atende as minhas necessidades. Mas eu considero seriamente a possibilidade de mudar-me para aquele sobrado de dois andares que visitamos mais cedo. É onde fica minha confeitaria.
— Sua? — Recebeu com surpresa e exasperação. Percebeu de repente que não tinha perguntado o que Adriana fazia da vida para sobreviver, com o que trabalhava e com alguma dificuldade processou a informação de que sua amiga era proprietária de um bom negócio.
— Sim. Sou a dona daquela confeitaria. Eu não disse nada mais cedo porque não achei que viria ao caso e de qualquer forma conversaríamos mais tarde. Não é mesmo?
— Sim. Claro. E como vão os negócios?
— Não tenho do que reclamar, de jeito nenhum. Vendo tortas caríssimas e as pessoas compram porque são deliciosas. Você sabe que sempre fui uma cozinheira de mão cheia e nunca tive medo do trabalho. Mas pago o aluguel daquele local e pago o aluguel dessa minha casa, na época isso fazia algum sentido, mas agora preciso resolver essa situação, acho que sairei daqui e irei me instalar no segundo andar do sobrado, é pequeno, mas atenderá as minhas necessidades já que vivo sozinha. E estarei pertinho da loja. Talvez até demita uma das minhas funcionárias, pois poderei fazer eu mesmo o serviço de manutenção. Não é ótimo?
— Sim, Adri, é maravilhoso!
— Mas isso resolvo em outro dia — Ela levantou-se num rompante — Bom, acho que já papeamos muito. Vamos comer? Estou faminta!
— Vamos, também estou com fome. O que teremos para o jantar?
— Entrevero de berinjela. Servirei com arroz branco soltinho. Está delicioso.
— Aposto que sim.
Sulamita ficou imediatamente desgostosa quando encarou o que havia em cima da mesa de jantar. Uma cumbuca de arroz que até parecia apetitoso, mas ao lado havia o tal entrevero esparramado numa travessa de vidro. De início achou que fosse uma espécie de vômito de gato, ou então as sobras do ralo da pia que Adriana teria tirado para desentupir o encanamento, as berinjelas estavam nitidamente passadas, derreteram tanto ao ponto de virar um purê de cor cinza misturado com marrom e o suco que elas soltavam era de um amarelo esquisito — que Sula teve a impressão de ser vômito. Não o de gato. E sim o vômito de Adriana, não pôde evitar tal pensamento — havia tomates, cebolas, passas e castanhas espalhadas por toda parte, como se tivessem sido jogadas, todos cortados em cubinhos quase perfeitos, demonstrando algum capricho, mas isso não evitou que o prato parecesse completamente intragável. Algo estava errado e ela podia sentir no ar. O aroma era de algo que cozinhou por tempo demais, não era um cheiro que lhe apetecia, pelo contrário, sentia-se pequena naquela cozinha abafada e tudo o que queria fazer naquele momento era sair correndo para longe daquele calor desagradável (o calor de Adriana) e dar uma pela tragada no ar fresco e respirável da noite. Mas não fez isso. Adriana a estava encarando com expectativa e excitação, pois queria vê-la provar do jantar e dar-lhe um veredito, que ela esperava, logicamente, que fosse positivo.
— E então? Não vai comer? Passei a tarde toda preparando essa ''boia''. É um prato relativamente fácil de ser feito, mas eu queria que fosse feito no capricho para você, então levou mais tempo que o normal. — Ela própria já tinha se servido de um pouco de arroz e uma boa porção das berinjelas assadas, comia uma garfada depois da outra com muito apetite, pois já estava acostumada com o sabor da derrota que dela própria tinha saído e que agora estava entrando novamente para sua habitual casa. Vê-la comer provocou em Sula uma ojeriza indescritível, sentiu seu estomago revirar como se ela própria estivesse engolindo daquela coisa chamada entrevero. Uma mistura de tudo com mais um pouco. Tudo saído de Adriana. De sua despensa pessoal. Sulamita iria comer por educação, mas desejou profundamente que nada ali estivesse estragado ou passado da validade, pois não queria ter uma desintoxicação por entrevero; não tinha certeza se tal coisa existia de fato, mas ela estava prestes a descobrir, pois assim como Adriana, serviu-se de arroz e berinjelas, tomando cuidado para não pegar daquele molho cor de sujeira que estava sendo expelido dos legumes assados. Tudo caiu em seu prato como se fosse purê de batatas, mas até mesmo para um purê a textura estava pastosa por demais.
— Bom, lá vai.
Bastou que sulamita colocasse a primeira garfada de berinjelas na boca para se confirmar tudo aquilo que ela já havia intuído. De início, houve uma repulsa imediata e teve o impulso de cuspir tudo, botar para fora, mas no desespero repentino ela acabou engolindo, desceu como se tivesse sido enfiado em sua goela contra sua vontade (porque de fato foi) e o sabor era intragável, de fato, era sabor de vômito de gato, restos de comida do ralo da pia, era sabor de sangue, suor e lágrimas, sabor do vômito de Adriana. Não fez cerimonia alguma e correu de imediato na direção da sala de estar, mas procurando o banheiro, pois iria botar todos os bofes para fora e não queria fazer isso na cozinha. A êmese que lhe abateu chegou muito antes e ela expeliu tudo o que havia em seu estômago na sala mesmo, sujando todo o chão e boa parte dos quadros na parede, os animais de porcelanas estavam cobertos de entrevero vomitado, alguns caíram e quebraram, mas Adriana não ligou muito, pois tinha muitos e poderia comprar outros mais se assim desejasse. E não se importou com a sujeira que Sulamita havia feito em sua casa, pelo simples fato da casa não ser sua e inconscientemente já tinha tomado a decisão de sair desse imóvel para ir morar no sobrado, pois isso facilitaria muito sua vida enquanto dona de loja.
— Só tente não sujar minhas cortinas, Sula, são novas. — Gritou indiferente na direção do cômodo ao lado. Conformou-se também com a indelicadeza de sua ''amiga'' ao vomitar todo o jantar que tanto lhe deu trabalho para fazer. Ela não iria mesmo levar essa amizade adiante, pois não suportava tal pessoa, nunca suportou, assim que saísse do imóvel (sem efetuar qualquer reforma, pois o estrago mais recente não tinha sido feito por ela e sim pela dona) iria cortar Sulamita por completo de sua vida. Enquanto ouvia os gemidos de ânsia que vinham da sala a cada nova vomitada, continuou a comer do entrevero que na sua opinião estava delicioso. Pensou nos infortúnios da mudança que teria de fazer. Teria de ter uma conversa com a proprietária do imóvel para avisar-lhe que iria ocupar também o segundo andar.
— Vou lhe preparar um belo jantar. Talvez uma vaca-atolada seja uma boa pedida. Carne bovina com mandiocas assadas. Uma vaca para outra vaca.

Seguiu comendo, mas agora também estava rindo. Rindo e rindo e rindo.