As páginas da vida de Manoel Carlos. Uma Resenha.

 

Manoel Carlos tinha em seu currículo um longo histórico de boas produções. Suas tramas eram sempre muito elogiadas pelo público e critica e sua carreira  bem estruturada enquanto autor de telenovelas durou durante três décadas inteiras, fazendo com que seu nome fosse uma referência dentro da Rede Globo. Muito se deve esse sucesso a parceria feita com o diretor de núcleo Ricardo Waddington, essa dupla nasceu em ''História de Amor'', quando autor e diretor uniram forças para dar vida ao que seria um grande sucesso daquela década no horario das 18h, essa trama fez bastante barulho no ano de 1996 por ter características de uma típica novela das nove, coisa nçao muito comum, mas que considero um grande exito de quem sabia  muito bem o que estava fazendo. Após colher os bons frutos desse enorme sucesso, Maneco desejou muito investir em outra crônica urbana com direção de Ricardo Waddington, porém, dessa vez, em horário nobre. Sendo assim, pouco tempo depois nasceria ''Por Amor'', novela que viria a ser uma dos maiores clássicos dos anos 90.

É de praxe em novelas cotidianas encontrarmos textos mais sensiveis, repletos de bons diálogos e conflitos interessantes, assim, nascem os dilemas sociais que fisgam a atenção do grande público, entretanto, nem só de uma boa prosa se faz uma telenovela, é necessário termos conflitos que nçao se limitam somente naquilo que for verbalizado, se faz necessário cenas que remetem a alguma ação entre uma cena e outra, para que as donas de casa (publico noveleiro mais convencional) não durmam frente a televisão ou mudem de canal para um programa de auditório qualquer. Manoel Carlos tem certa dificuldade em criar tramas ágeis, com maior dinamismo e bom fluxo de enredo para além do bom texto. Suas novelas costumam ser mais lentas e introdutórias. Particularmente, não considero sua lentidão um defeito, pois sei que é assim que se molda bons personagens, sendo muito natural que com o passar dos capitulos a história acabe encontrando seu ritmo definitivo, e o que antes era considerado ''lentidão'' ou ''monotonia'', acaba por ser mais um dos pontos positivos de uma grandiosa obra televisiva. 

Acontece que poucos são aqueles que possuem paciência de enfrentar cinquenta capítulos para que a história começe a engrenar definitivamente e esse é o principal motivo para que maneco seja tão criticado por uma parcela de criticos televisivos mais exigentes, sem falar o ritmo da televisão em geral foi mudando nas ultimas décadas, tornando-se cada vez mais monossilabico, enquanto que seus manunscritos continuavam quase tão grandes quantos verdadeiros monólogos. Penso que as pessoas confundem construção narrativa com ''lentiodão'' e nesse caso estariamos falando de uma enorme injustiça que foi feita na direção de um grande novelista. Embora as criticas feitas em sua direção tenham sim um fundo de verdade. Ricardo Waddington deu tão certo dirigindo suas novelas por dois motivos: primeiro que ele trouxe a agilidade que faltava na linguagem do autor, podemos notar que, ao dirigir cenas de brigas cotidianas e familiares com muito mais emoção e agilidade, as novelas tornavam-se mais intensas, com mais emoção e veracidade, sem falar nos cenários impecáveis e a sonoplastia que beirava a perfeição, tudo isso é resultado de uma boa direção geral. Waddington acabou suprindo a falta de agilidade que faltava em capítulos mais prosaicos. E o segundo motivo, penso eu, foi porque o público gostou desse contraponto nos estilos, que sempre foi tão perceptível, Ricardo e Manoel Carlos são dois opostos, mas que por alguma razão, se atraem.

Dito isso, acho que finalmente posso ir direto ao ponto. Após uma trinca de grandes sucessos no horário mais nobre da casa (Por AmorLaços de Família e Mulheres Apaixonadas), chegava ao fim a exitosa parceria entre autor e diretor. Acredito que Waddington estava com vontade de trabalhar com outros autores, elencos e canários, em outros estilos de novelas. Maneco aceitou de bom grado a decisão do amigo e engatou uma nova parceria com Jayme Monjardim, diretor conhecido por sua direção totalmente lenta e monótona. Aparentemente seria a parceria perfeita para Manoel Carlos, autor de novelas calmas e cotidianas, certo?

Errado! 

Após o grande sucesso de 'Belíssima', novela de Sílvio de Abreu, a responsabilidade de sua substituta era alta. A Globo encomendou uma nova novela de Manoel Carlos com direção de Jayme Monjardim. A expectativa era alta, pois seria a estreia da dupla após a saída de Waddington, e após o enorme sucesso de ''Mulheres Apaixonadas'', acredito que a emissora estava esperando que essa nova novela fosse nada menos que um fenômeno de audiência. E assim nascia ''Páginas da Vida'', exitosa crônica carioca que trouxe uma trama sensível e repleta de dilemas sociais. Exibindo um elenco numeroso, em sua grande maioria, veteranos da casa, foi entregue várias cenas marcantes que ficaram para a história como um clássico mediano do horário. Bastante premiada, a novela fez sucesso tanto no Brasil quanto no exterior.

Mas como nem tudo são flores, houve uma queda enorme de qualidade se compararmos Páginas com as novelas anteriores do autor. Já na primeira semana conseguiamos perceber a lentidão excessiva da narrativa. A direção de Monjardim não casava com o texto do maneco. E o excesso de personagens seria talvez a maior dor de cabeça tanto para quem estava nos bastidores quanto para quem acompanhava assiduamente a novela na TV, pois mesmo a pouco tempo no ar o público já pôde notar que metade do elenco não teria função na trama. É um pouco difícil falar de ''Páginas da Vida'', pois, foi uma boa novela, de grande sucesso, (aqui nós temos uma das melhores vilãs da década passada), mas, em simultâneo, foi uma novela cheias de problemas de produção, personagens esquecíveis e subtramas maçantes.

Tentarei exemplificar tudinho nessa resenha.


Enredo:

Um detalhe peculiar sobre o desenvolvimento da narrativa é que não temos uma protagonista definida, nem mesmo temos um eixo central, apenas vamos acompanhando a história de todos esses personagens e seus conflitos mais intimos, é até um pouco disruptivo, tudo aqui está diluido em páginas cotidianas da vida dessas pessoas (tornando o titulo da obra autoexplicativo).

Primeira fase:

A jornada de Nanda (Fernanda Vasconcellos), uma jovem estudante nascida no Rio de Janeiro mas que está morando em Amsterdã para se formar em história da arte. Ela se apaixonou por um rapaz inconsequente chamado Léo (Thiago Rodrigues), moço rico que é constantemente cobrado por pai para assumir os negócios da família. Mesmo ainda não sendo casados, os dois mantiveram relações de marido e mulher no tempo que estiveram juntos e numa dessas transas irresponsáveis Nanda acabou engravidando do namorado. Decidiu contar sobre a gravidez no dia do seu aniversário, na esperança do rapaz receber melhor a notícia, mas, ela caiu do cavalo, Léo recebeu a notícia da pior maneira possível, disse que não iria assumir a paternidade dessa gravidez, pois supostamente teria sido enganado pela namorada numa especie de golpe da barriga. Tratou logo de cortar relações com a jovem e simplesmente a abandonou, gravida, sozinha e sem dinheiro, num país estranho.

Desesperada, Nanda encontrou conforto nos braços da amiga Olivia (Ana Paula Arósio), que estaria sempre pronta para ajudá-la em tudo que fosse possível. As duas se encontraram por acaso em Amsterdã, Olivia estava em lua de mel e foi num de seus passeios românticos que esbarrou em Nanda, que assim com ela, era outra brasileira morando num país estrangeiro. Olivia achou incrível essa coincidência e às duas imediatamente iniciaram uma amizade (que duraria até que Nanda fizesse a passagem dessa para melhor). Ambas estavam trocando confidencias, contando segredos uma para a outra, quando Nanda decidiu contar sobre sua gravidez. Contou que estava em Amsterdã para estudar e ter um diploma, mas que tragicamente acabou grávida e abandonada, teria que voltar para o Brasil, mas estava com medo de ter que enfrentar a mãe Marta (Lilia Cabral) pois teria que fatalmente contar sobre sua gestação indesejada e dizer também que estava gastando o dinheiro que sua mãe estava mandando para seus estudos para pagar consultas médicas e exames gerais. Olivia aconselhou a amiga dizendo que ela deveria voltar para o Brasil e dizer toda verdade para a família pessoalmente, cara a cara. E assim Nanda o fez.

Marta era quem estava pagando os estudos da filha, com muita dificuldade, pois também tinha de sustentar a casa e toda a familia. É casada com Alex (Marcos Caruso), homem de bom caráter, mas que não consegue trabalhar e trazer o sustento, mesmo que seja de praxe que um chefe de familia seja o provedor principal e não a mulher. Mas Alex vive com a saúde debilitada. Além de pagar todas as contas, Marta também tinha de arcar com todas as despesas do filho adolescente, Sérgio (Max Fercondini), que segundo ela própria diz — ''é um encostado, igualzinho ao pai!''. Infeliz e amargurada, Marta costumava ser muito cruel quando se refere ao marido e ao filho os chamando de preguiçosos ou vagabundos, fala essas coisas com grande naturalidade, sem preocupar-se com os sentimentos de ambos (aqui, autor já estava trabalhando os traços de psicopatia da personagem), mas, apesar dos pesares, a personagem ainda se mantém equilibrada, ela só viria perder a sanidade mental mais para frente, Nanda voltaria de viagem e diria a verdade sobre sua gravidez não planejada em circustancias insalubres, esse seria o catilho definitivo para o surto dessa vilã.

Nanda chegou ao Brasil muito mais cedo do que deveria, primeiro, marcou um encontrou com o pai no aeroporto. Alex levou um susto quando viu que a filha estava gravida, Nanda já estava com uma barriga enorme. Mas apesar do choque, relevou, tratou a filha com todo amor e carinho, tentou entender a situação da melhor maneira possível. Porém, ficou ainda mais perplexo quando Nanda revelou que estava grávida de duas crianças. O mais difícil, logicamente, seria enfrentar a fúria de marta. Os dois planejaram chegar juntos em casa e soltar logo a bomba para acabar de vez com aquela história. Parecia o melhor a se fazer, enfrentar o monstro de uma só vez.

Quando chegaram em casa, eles nem tiveram tempo de dizer nada, Marta entendeu rapidamente o que estava acontecendo, primeiramente, ela pensou em todo o dinheiro gasto com os estudos da filha, aquele investimento simplesmente não teria mais retorno — note que em nenhum momento ela demonstrou preocupação com o bem-estar da filha — Marta deu uma surra em Nanda e a expulsou de casa, numa cena clássica que ficou para a história.


Alex a trouxe de volta alguns dias depois e a Marta que não tinha engolido essa história ainda passaria a infernizar a vida da filha diariamente, com gritos e ofensas, em cenas pontuais e cruéis passariamos a presenciar atitudes cada vez mais abomináveis da megera. Numa dessas discussões com Nanda, Marta a acusa de ter dado o golpe da barriga no namorado rico, mas sepondo que o rapaz não era idiota, percebeu tudo, foi embora e a deixou sozinha para criar os bebês. Nanda foge de casa desesperada e indignada com a acusação e vai para um ponto de ônibus onde é atropelada por um carro desgovernado. A jovem imediatamente entrou em trabalho de parto e foi levada as pressas para o hospital.

Helena (Regina Duarte) foi quem fez o parto dos gêmeos e assim nascia Francisco e Clara. A médica fez de tudo para salvar a vida de Nanda, mas após sofrer aquele terrível acidente e dar a luz a gêmêos, a jovem não sobreviveu. As crianças, agora, eram órfãos de pai e mãe.

Quando soube do falecimento da filha, Alex levou um susto tão grande que acabou sofrendo um ataque do coração, foi levado as presas para o hospital, onde ficou até o fim da primeira fase.


Marta foi chamada para conversar com Helena na maternidade onde nasceram as crianças. Com a morte da filha e o marido hospitalizado, ela naquele momento era a única responsável pelos bebês. A vilã já estava disposta a renegar os netos, mas quando foi informada que o menino era lindo e nasceu com saúde, mesmo relutante, aceitou ficar com a criança. Mas, diferente do irmão, a menina não nasceu com saúde, tinha síndrome de Down, num discurso completamente insensível, Marta recusou-se ficar com a neta, alegando não ter dinheiro nem paciência para cuidar de uma criança ''especial''. Disse até que seria capaz de jogar a menina na lata do lixo. Helena estava completamente horrorizada, a médica insistiu para a vilã reconsiderar, mas foi em vão. Marta não queria mesmo a neta.


Helena é uma mulher divorciada e feliz, vive com o filho adotivo e a empregada. Cheia de compaixão pela filha de Nanda, recusou-se de levar a criança para um orfanato. Decidiu então adotar a menina, mas em segredo, sem que Marta soubesse, entrou com um pedido de adoção na justiça, enfrentou algumas dificuldades, mas no fim conseguiu a guarda de Clara. Helena a criou com muito amor. Foi assim pelos próximos cinco anos.

Marta tinha que dizer a Alex o que tinha acontecido com a menina, ela então contou uma mentira que viria a trazer muitos problemas mais pra frente, ela disse que a menina nasceu muito fraca e doente e acabou falecendo algumas horas depois.

segunda fase:

Cinco anos se passaram. Os filhos de Nanda foram separados quando ainda eram dois bebês de colo. Clara foi adotada por Helena, e Francisco está sendo criado pelos avós. Marta ainda enfrenta dificuldades de manter a casa, agora ela tem uma boca a mais para alimentar e a situação financeira não está nada fácil. Ela culpa o menino Francisco por todas as dificuldades que a família vem enfrentando, a vilã demonstrava toda a sua amargura sempre que olha para o neto com ódio e desprezo.

O pai das crianças está de volta ao Brasil, agora ele cuida dos negócios da Família e possui muito dinheiro. Olivia, a amiga de Nanda, o encontrou por acaso almoçando em um restaurante com a namorada: ela não perdeu tempo e tratou logo de dizer a ele o que tinha acontecido com a Nanda e os bebês. Léo, quie estava estava muito arrependido pelo que tinha feito, decidiu então correr atrás do prejuízo se aproximando de Francisco e entrando com um processo de paternidade na justiça. Ele queria a guarda do filho a qualquer custo, em partes, porque sentia-se culpado pelo que tinha feito com a Nanda.

O avô de Francisco amava o menino mais do que qualquer outra coisa nesse mundo, estava disposto a lutar por ele na justiça. A partir daí vemos uma briga entre dois homens disputando o amor de uma criança, criou-se uma discussão emocionante que nos trouxe grandes conflitos reflexivos e morais. Léo contou com o apoio de Marta, que por um bom dinheiro aceitou  facilitar no processo pela guarda do menino.

Enquanto isso, ninguém sabia ainda que a menina Clara está viva. Apenas Helena, que ao descobrir que o pai das crianças está de volta ao Brasil e lutando pela guarda de Francisco, tratou logo de esconder a menina para que ele não venha tentar tirar sua filha de seus braços.

Pontos positivos:

Paternidade:


Em muitas novelas costumamos ver uma visão generalizada e negativa sobre a paternidade. Os pais normalmente são intolerantes com seus filhos, ás vezes até violentos, fica parecendo que o amor só existe entre as mães e suas crias, parece até que os homens são incapazes de amar seus filhotes. Todavia, ''Páginas da Vida'' nos apresentou o personagem Alex, homem de bom coração, que por amor a filha, lutou com unhas e dentes para defendê-la da crueldade da mãe. Apoiou sua gravidez não planejada, mesmo com a esposa agindo violentamente quando a expulsou de casa, correu atrás e deu todo o suporte para Nanda, que naquele momento estava precisando de toda ajuda possível. Aqui nós temos um pai que dedica todo seu amor para os filhos, coisa rara nas novelas.

Cinco anos após a morte da filha, Alex transferiu o amor que sentia por Nanda para o neto Francisco. É emocionante ver a relação afetiva de ambos. O menino entra em defesa pelo avô sempre que a avó megera tenta humilhar o marido e vice-versa. Posteriormente, Alex lutaria bravamente para ficar com a guarda do neto quando o pai biológico de Francisco apareceu querendo uma reaproximação tardia com o menino.

Com uma atuação digna de Oscar, Marcos Caruso soube interpretar esse personagem como ninguém. Podíamos ver a tristeza nos olhos de Alex sempre que ameaçavam tirar seui neto de seus braços, também era notável o ódio que ele sentia da esposa, sempre que a megera maltratava o menino Francisco.

Grande Alex! Grande Manoel Carlos!


Maternidade:

Manoel Carlos demonstra muita sensibilidade ao abordar os dilemas femininos em suas histórias. A maternidade está sempre em pauta nas suas novelas, ele faz questão de mostrar o quão importante é o amor materno na vida dos filhos. E o quão forte pode ser esse amor, a mãe seria capaz de derrubar qualquer barreira para proteger os filhos. Na primeira fase da novela vemos Nanda lutando para manter uma gravidez que não foi planejada. A jovem teve de enfrentar o abandono do namorado, a crueldade da mãe e ainda por cima, uma gestação de risco, já que ela estava esperando duas crianças, sendo que uma delas era menor e ao que parece possuía algum problema de saúde. Nanda jamais pensou em aborto, mesmo antes das crianças nascerem ela já tinha desenvolvido um forte extinto materno e iria proteger as crianças contra qualquer fatalidade. Ela assim o fez até o dia de sua morte.

Helena foi a médica que realizou o parto dos gêmeos e presenciou a morte da Nanda logo após a jovem dar á luz. Ela precisou dar a notícia para a avó das crianças, Marta foi informada sobre a morte da filha, e que agora ela é quem teria de cuidar dos gêmeos, mas acontece uma criança nascida com síndrome de Down precisaria de cuidados especiais e Marta se recusou a criar a neta, destilando muito preconceito disse que não poderia jamais ter uma neta ''mongoloide'' e que o melhor a ser feito seria levar a menina para um orfanato qualquer.

Helena possuía um sentimento materno muito grande e decidiu registrar a menina na justiça como sendo sua, em segredo, a criou com todo seu amor. E quando o pai biológico da Clara apareceu para tirá-la de seus braços, lutou com toda força de seu coração para que não perdesse a guarda da menina.


A crueldade de Marta:

Essa pode ser a melhor vilã da década passada. Vários fatores contribuem para que Marta seja considerada a antagonista mais complexa da teledramaturgia brasileira, essa personagem recebeu muitas críticas por sua imensa crueldade ao tratar da gravidez da filha com ódio e violência, chegando a dar uma surra em Nanda, que naquele momento já estava num estágio avançado da gestação. Mas por outro lado, também foi defendida por muitas pessoas que davam razão a personagem.

Marta pagou durante muitos anos a faculdade da filha que foi estudar história da arte em Amsterdã, mas acabou ficando grávida e usou o dinheiro que a mãe mandava para fazer o pré-natal dos bebês. Marta teve seus motivos para agir daquela forma quase bestial, mas também não precisava ser tão fria e irredutivel, nas vezes que torturou Nanda com perguntas e questionamentos sobre a paternidade dos bebês, não demostrava ter o mínimo de empatia utilzando de palavras cruéis que chocaram os telespectadores. Fez da vida da filha um inferno nos dias que antecedem sua morte, sendo ela uma das principais culpadas pelo acidente fatal de Nanda. 

Marta não demonstrou arrependimento ao saber da morte da filha, muito pelo contrário, foi ficando cada dia mais louca, insana e cruel na medida que novos problemas chegavam e ela ficava sendo a responsavel de solucioná-los. Ainda mais que agora ela é quem teria de criar o filho de Nanda  a menina foi largada no hospital para adoção  mas o menino ela teve de levar para casa.

Marta estava em desequilíbrio mental, culpava Francisco pelas dificuldades financeiras que eles tiveram de enfrentar nos anos que sucederam os acontecidos na primeira fase da trama. Até que surge Léo, o pai biológico do menino, oferecendo uma grande quantia em dinheiro para levar o menino embora, não pensando duas vezes aceitou a proposta. A vilã estava vendendo o próprio neto.

Aqui nós vemos a construção de uma autentica psicopata (fato comprovado por um psiquiatra nos últimos capítulos da novela), Maneco fez isso com tanta maestria que boa parte do publico sequer percebeu que a malvada tinha traços de psicopatia. Ela até foi defendida por muita pessoas que achavam que ela tinha alguma razão nas coisas que falava e fazia, pois de fato havia sido injustiçada em prejuizo financeiro.

Mas não se enganem meus amigos, no fundo, Marta estava preocupada apenas com o dinheiro que ela havia perdido, sentia-se afrontada pela mentira que Nanda contou durante todos aqueles anos. Não estava preocupada com a filha, muito menos com as crianças que Nanda estava esperando.

Nunca antes tinha visto uma vilã psicopata tão bem construída como essa!


A síndrome de Down:

Manoel Carlos sempre abordando temas sociais em suas novelas. Em ''Páginas da Vida'' não foi diferente, aqui nós vamos acompanhar a trajetória de Clara, a filha da Nanda, que foi rejeitada pela avó por ser portadora da síndrome de Down. Ela foi adotada por Helena, que a criou com muito amor e dedicação. Nós vemos ao longo da trama diversas cenas de intolerância por parte da população preconceituosa, que trata Clarinha como se ela fosse incapaz: Helena lutou com unhas e garras para defender a filha de todas essas injustiças, demonstrando ser uma mulher de muita fibra.

Clara sofreu muitos preconceitos até na pré-escola, onde uma professora a tratava diferente dos outros colegas a impedindo de fazer as atividades por supor que a menina seria incapaz de realizar as lições escolares. Quando Helena descobriu ficou indignada, tratou de denunciar a professora para as autoridades.

Clara encantou o publico e é lembrada até hoje por sua frase marcante  ''moça munita'', ela dizia isso sempre que via o espirito de Nanda, sua verdadeira mãe. 


A ultima grande novela de Manoel Carlos:

''Páginas da Vida'' foi um grande sucesso de audiência, por mais incrível que pareça, deu mais audiência que grandes clássicos como Por Amor, Laços de Família e Mulheres Apaixonadas. Apesar de todas controvérsias e inconsistencias de roteiro e produição é considerada o ultimo grande trabalho do autor, que viria a decepcionar o publico anos depois com as insossas Viver a Vida e Em Família.


Pontos negativos:


Lentidão:

A novela sofreu muitas criticas por seu ritmo lendo e arrastado. Já nessa época Manoel Carlos demonstrava esgotamento criativo e infelizmente o autor pecou em demorar muito com certos acontecimentos da trama, alguns capítulos eram monótonos demais, não acontecia nada de importante na narrativa em muitos momentos. Poderia ter feito melhor.

Excesso de tramas e subtramas:

Essa novela teve muitos personagens sem função que só apareciam para preencher capítulos. Não era tão perceptível na primeira fase, quando o foco da história era a Nanda, mas já no inicio da segunda fase podemos notar um excesso desnecessário de personagens. Era muita gente disputando espaço, essas pessoas não tinha muita personalidade e nem agregavam a novela, mas estavam ali por algum motivo. Na epoca de exibição, boa parte do elenco reclamou com o autor por não terem tido destaque na trama, alguns até ameaçaram abandonar a produção, também pudera, Maneco convidou um elenco enorme, de muito peso e deu a eles personagens coadjuvantes que estavam ali apenas por estar. Era até difícil lembrar o nome de todo mundo.

Helena esquecível:

Em sua terceira Helena, a saudosa Regina Duarte voltava ao horário nobre com grande expectativa, mas Infelizmente a personagem não era tão boa quanto suas Helenas anteriores, após adotar a menina Clara, a personagem ficou sem função no enredo da novela. Ela tinha o dever de defender a filha portadora da síndrome de Down contra o preconceito da sociedade, foi uma boa abordagem, mas com o passar dos capitulos isso foi cansando e acabou ficando de lado, virando pauta secundária, quando ela é quem deveria ter sido a principal nesse enredo.

Quando Léo retornou ao Brasil querendo a guarda da filha, Helena lutou bravamente para ficar com a menina, foi uma trama interessante, mas a essa altura já era tarde demais para a personagem. Em alguns capítulos ela nem aparecia. Infelizmente Helena não honrou o titulo de ''protagonista''.

Abertura esquecível

A direção de arte nas novelas de Manoel Carlos costumavam dar um verdadeiro show de criatividade, se em Mulheres Apaixonadas nós tínhamos o que podia ser a melhor abertura da década, (vinheta simples, mas cheia de conceito), em ''Páginas da vida'' éramos castigados com uma péssima vinheta de intervalo, que consistia numa folha sendo levada pelo vento pela cidade do Rio de Janeiro, ao som de uma Bossa-Nova. Ao fundo víamos pessoas aleatórias passeando com a família e amigos. Foi difícil aguentar essa abertura por pouco mais de duzentos capítulos, as paisagens mostradas não eram tão marcantes e inspiradas quanto as que foram mostradas em Laços de Família, por exemplo.

Ao fundo podíamos ouvir um instrumental de ''Wave',' grande sucesso de Tom Jobim, mas a música veio no formato de instrumental e ao invés de emocionar o telespectador, acabou dando sono em todo mundo.


Autor e diretor, lentidão por todos os lados:

Como foi dito anteriormente, a direção lenta de Jayme Monjardim não casou com o texto cotidiano de Manoel Carlos. O autor escrevia cenas recheadas de bons conflitos familiares que podiam despertar interesse do publico, mas o diretor da novela pecou em não colocar uma boa sonoplastria nessas cenas, ou ter feito um bom jogo de cameras, ou posicionado melhor seu time de atores em cena, esses momentos podiam ter sido mais intensos, mas acabaram passando batido aos olhos de quem via a novela. A direção equivocada estragou o que podia ser uma das melhores novelas do Maneco.

considerações finais:


A novela ''Páginas da vida'' possuí uma das tramas mais complexas da teledramaturgia brasileira, por este motivo, considero essa novela a mais criativa de Manoel Carlos (porém, está longe de ser a melhor), confesso que tive certa dificuldade em explicar o enredo dessa trama, por tamanha complexidade. Maneco criou um emaranhado de situações cotidianas para compor a novela, no fim acabou criando um monstro de muitas camadas e interpretaçoes multiplas. Mas delicioso para quem sabe apreciar um bom texto.

Fica essa homenagem ao Rei Manoel Carlos que faleceu no dia de hoje deixando um imenso e belo legado enquanto autor de novelas urbanas, humanas e totalmente inspiradas. É de uma sensibilidade impar que somente uma pessoa rara poderia ter. Obrigado por compartilhar conosco esse texto genial atravez de suas tramas.