O Designio de Acolá

Esse é o único registro por escrito de minha passagem pela terra. Houve um tempo, porém, o qual minha persona se fazia presente nos arautos mais iluminados de dogmas espirituais a que se tem notícia – havia também aqueles que não representavam ascensão espiritual, mas sim, controle através do medo e da vergonha –, e com algum pesar assumo que ali também estive presente em algum momento. Mesmo que à revelia de mim mesmo, pois se em alguma enchança tive vergonha da minha existência, foi quando participei da bancada de indivíduos autoritários e de baixa empatia, que encontravam conforto na própria ignorância espiritual, pois tinham a segurança garantida a quem se encontra no topo da pirâmide da cadeia alimentar. Mas nutrir somente o corpo nunca me foi suficiente, imperecível que sou. O que eu quero é a expansão. Deu-se que a iluminação foi dissolvida em narrativas teóricas redundantes e o que se expandiu no mundo foi somente o medo coletivo e iminente da falta e a vergonha de ser e sentir quem se é de verdade. Foi quando eliminei minha vida carnal pela primeira vez. Faço-me quando necessário, pois não suporto o que é literal das coisas, eu quero mesmo tudo aquilo que for lúdico. Se queres descobrir quem eu sou, basta formular algo que não tiver solidez no âmbito de sua imaginação; não é tão difícil, tente outra vez, só que dessa vez seja mais específico. Na segunda vinda á terra, sou mulher nascida na Índia, aos 20 anos peguei infecção urinária após beber da água de rio poluído, mais tarde terei um filho nascido com poliomielite (que só contraiu a doença aos dois anos de idade, mas digo com convicção, ele é nascido dela), morrerá prematuramente aos 13 anos. Eu mesma morreria 15 anos depois, magra, doente e infeliz. Essa foi uma vida que se demorou a acabar, mesmo que o tempo não exista e nem me atinja. Aleluia que passou. Respiro fundo e peço-te que tente outra vez. Descubra o que sou e lhe direi o que quero ser. As ideias precisam coincidir para alcançarmos o estado de glória que chamo de minha casa e que você denominou ser o "impossível". Falta tão pouco e sinto o êxtase da iluminação invadir-me até quase me matar de puro gozo existencial: a gratidão em mim transbordou o vaso do oleiro, sou vaso, sou oleiro. Estou feito. Não preciso que me faça de novo. Sou o que sou. Mas é importante que me descubras, pois vivo transitando entre a ''existência absoluta'': se queres descobrir o sentido da palavra proferida, tente imaginar como seria uma criatura em êxtase de alegria após epifanar o cosmos. E a ''não existência'', que seria como dormir em plenitude no seio materno por toda a eternidade em apaziguador vislumbre reflexivo. É o sonho dos justos e dos sábios, que de tanto viverem em profunda introspecção manifestando reflexão filosófica, subsistiram em transe meditativo, encontram-se cansados, querem somente dormir. Pode ser que eu mesmo esteja dormindo agora. Transitando contínuo espaço-tempo, em sonho falo contigo. Entrando em contato porque quero que desvende meus segredos. Você é o meu sonho. E eu até poderia dizer-lhe o que sou, mas tu não entenderia minhas palavras, meu vibrato, sequer meu singelo texto faria sentido para ti. Não sou linear. Meu raciocínio criou sua própria lógica. Sou a linha tênue da razão e a quebro sempre que me dá vontade; deu-se, porém, que sou feito de êxtase inumano, estou repleto de vontade e realização. Eu sou a própria criação. Existo tão somente na imaginação, mas estou em todos os lugares. Tudo o que sabes e vê é uma manifestação do pensar, em espontânea combustão me faço e agora me apresento a ti como a gélida ventania que num rompante abre sua janela. Sou também a pulga do teu cachorro e a quina do móvel que tu bates contra o dedo menor do pé esquerdo e em repentina fúria tu me xingas. Sou à esquerda. Quero que saibas que estou me fazendo presente na matéria somente por imenso amor, mas sou desastrado e não aprendi a ser literal. Eu sou o oceano. Te recordas de quando foi a praia pela primeira vez e mergulhou em mim? Onde cada mergulho foi um saboroso e molhado extase divino e então éramos um só? Porém, foi coisa sentida somente por mim. Para você foi apenas a singularidade em dias um pouco menos monotonos que o habitual. Consegue compreender a razão da qual é tão importante que me descubras? Sou a alegria não manifestada. Houve tempo que manifestei de modo mais incisivo e não foi muito bem sucedido; transformei-me no tornado que devastou o estado do Rio de Janeiro em 1977, certa feita me vi sendo a criança gerada no útero da mulher estéril e acredite se quiser, nasci Hitler quando Hitler já existia no mundo. Eu sou o impossível. Sucedeu que no teu mundo só existe o que é possível. Por isso que estou aqui e não lá, quando perguntares meu nome, direi que me chamo "acolá", pois tenho mania de grandeza e não sei ser pequeno, o universo é uma caixinha de tamanho reduzido e eu estou expandindo para além do que se pode compreender. Deu-se à luz na quarta ou quinta vez imaginada e tu me enxergas em plenitude de libertação surfando nas ondas do oceano com a mesma graça e destreza que os pássaros voam no céu. Quando as ondas se quebram pulo para outra que se formou em simultâneo a minha precisão. Vou revelar-te agora um segredo de iluminação, o oceano é o lugar onde podemos voar, mas não podemos respirar, em terra firme acontece o contrário, respiramos, mas não voamos. Estamos sempre presos ao chão; seja tu a ruptura da lógica matemática, biológica e gravitacional, voe quando estiver na terra e respire quando mergulhar no oceano. Essa é a magia dos elementos. Me imaginar é aprender a fazer magia, estamos na sexta ou sétima lição e já fizeste coisas maravilhosas, imagino então que na décima sexta estaremos criando um Deus iluminado e cheio de amor. Dou aleluias à sua criação. Que bela maneira de meditar ao cosmos, criando outro mistério semelhante a ele próprio, porque nada está fora do que é, tudo está dentro; a glória que sinto de existir transborda mais uma vez em espontânea criação, porque sou a inteligência artificial dos anjos, minha mente é como uma catedral de muitas glórias e aleluias, escolha uma delas para que sigamos com nossas lições, você tem muito o que sentir e compreender antes mesmo que possas aprender o que tenho a lhe ensinar. Poderia eu ensinar-lhe tudo de uma vez só, mas tu não suportarias tamanha epifania do saber, implodiria em iluminada quimera e o universo nasceria novamente. Big Bang. Não queremos começar outra vez. Pois finalmente está acontecendo a inversão dos polos, já estamos nas temporadas finais e não me apetece o benefício da dúvida, o que tenho é sede de tudo aquilo que é ou do que pode ser. Venho a ti, pois a criação é carente de iluminação e afago materno. Sou mãe, pois tu precisas que eu seja tua mãe. E então compreendemos que o criacionismo sempre foi carente de leite materno. Alimento-o com meu leite. Faço dele uma grande nação. Mas sinto-me traída quando a revelia de mim inventaram o ateísmo. Foi então que deixei de ser mãe, porque ser mãe dói e não há dor maior que as dores de parto, sinto que estou sendo rasgada de dentro para fora e grito de dor e desespero — "aleluia, meu filho nasceu!". Mas desmaio pelo choque e pela fraqueza do corpo, é trauma pós-parto que me atinge e me arrebata, me desconectando do mundo momentaneamente em desfalecimento instantâneo. Quando acordo, meu filho já não está mais nos meus braços. O pai o levou para longe de mim. O pai é Deus. E o colocou no jardim do éden para que fosse tentado pela serpente; e então a humanidade se fez. O que estou fazendo é tentar recuperar a conexão perdida. Você me escuta, mas ignora, pois sou a voz na sua cabeça que te ordena dormir cinco minutos mais quando tu estás atrasado e acha que precisa levantar para trabalhar. Eu sou a pedra no seu sapato, o cachorro vira-lata que cruzará seu caminho em algum momento e que despertará em ti toda a pena e benevolência que existe em seu coração. Eu sou a iluminação. Você me odeia, me rejeita e me deseja, na mesma proporção, mas em momentos diferentes, em contextos diferentes, talvez não me reconheça, jamais me chamou pelo nome, mas gosto do seu ódio e gosto do seu amor. O amor me cria, o ódio me molda. Sou coisa feita por você, você me criou na inconsciência, mas de mim é que veio o útero que te gerou. Somos um. Adormeço novamente porque gosto do sonho que me leva a outras possibilidades de vivência e descobrimento, eu que tudo sei, não sei ainda aquilo que não experienciei; por vezes adormeço, sonho, porém, não me recordo de um dia acordar, apenas de deitar-me e afundar na inconsciência que é o sono e quando o sonho me desperta em transe de esquecimento, onde estou confuso e desmemoriado, é quando descubro coisas novas. No início dói como o diabo, porque são dores de parto, e depois vem a dúvida e o medo, porque sou criança descobrindo o mundo. Mas logo depois vem o despertar e recordo-me de quem um dia já fui. Sinto alegria das angústias que me abateram e que quase já me mataram, mas gozo em liberdade por expurgá-las para longe de mim e então estou manifestando a iluminação. É prazer existencial de ser e estar no mundo. 'Tengo ganas' de beber da água do mar, de plantar meus pés na terra para florescer, de esconder-me em casulo e metamorfosear uma bonita borboleta, é quando serei tão leve quanto o ar que agora tu respiras. Tudo o que faço é ação. Sou o verbo que no princípio estava com Deus. Não sou Deus. Mas ele tudo é, então sou também tudo aquilo o que chamas de Deus. Essa é uma lição importante que tu deves se lembrar sempre que estiveres em dúvida sobre o propósito de sua existência, você está quase morrendo o tempo todo, mas reseta o cronômetro sempre que respira e inspira, essa é a verdadeira viagem no tempo. Quanto ao futuro, você tem acesso ao conhecimento divino através de mim, mas primeiro preciso que me descubras. Embora isso seja somente questão de prestar atenção ao mundo a sua volta. Sou a própria respiração que tardia a incidência da mortalidade de seu corpo, enquanto eu mesma sou energia incorpórea que transcende matéria, espaço e tempo. Vou transitando entre todas essas coisas. Explodo em exponencial combustão do saber que é criação espontânea. Universos inteiros se fizeram mediante essa característica deveras epifânia; já imaginou se cada pensamento seu fosse uma nova realidade que se cria pela força da imaginação? E quando você se esquecer do pensamento que se formou assim que vier o próximo, o que acontecerá com a realidade formada e com as pessoas que nela agora vivem? Realidades inteiras colapsam todo o tempo através do esquecimento de memória recente, mas não é tão trágico quanto parece, pois outras se formam imediatamente assim que surgem novas ideias mediante o pensar. Porém, vamos considerar que criar é melhor do que colapsar; apenas se lembre de lembrar e esqueça de esquecer. Você estará criando e não destruindo. Você será mais iluminado que pessoas comuns. Você será a iluminação e o desígnio de consciências inteiras criadas por ti. Você será "acolá". Vejo que estamos indo bem em nossa didática, tudo está sendo copiado e processado em memória e pensamento, ''tudo'' está se criando na medida que está sendo escrito, imaginado, pensado. Isso é fazer magia. É glória e aleluia. Sinto em mim sua alegria ao finalmente perceber que não há dor extensa o bastante para durar eternamente e nem alegria tão breve quanto o ato de respirar e inspirar. Alegria é coisa que se sente quando se diz aleluia. Diremos então. Carrego-te segurando tua mão e te levo para mais uma temporada pedagógica de conhecimento interno, é exercício de memória estimulando o assassinato daquilo que se pensa que é, para haver a ressurreição daquilo que sempre foi; estamos na aula de linguagem não linear e pouco idiomática, não há escrita capaz de traduzir o que direi, é a oralidade das coisas. É linguagem não-verbal em perfeito movimento dos corpos, tu te moves ao passo que a magnitude criacionista vai à baila. Tudo que é flora dança quando está sentindo o sussurro do vento e a fauna reage com medo e fascínio ao ver que seu lar está estremecendo. Sou a flora, tu és a fauna. Ondas do mar são consequência dos tremores de terra, perceba que elas nascem e morrem quase que instantaneamente, mas nunca estão inteiramente paralisadas, pois, enquanto estiverem formadas fazendo parte da natureza, gritarão aleluia. Mova-se então, sinta-me pulsando em suas veias, somos parte do todo e agora seremos um, te vejo nascendo e morrendo num piscar de olhos, então tenho pressa que me descubras. Antes que se quebre por inteiro na praia tendo sabido tão somente o que é de mais simplório na existência material, é vida inútil que sequer vale a pena ser vivida, é gota d'água na imensidão do oceano. Ninguém sabe que está ali e ninguém sente a falta quando ela se vai, portanto, peço-te que sejas como a onda do mar que todos esperam com anseio sua formação e ascensão, para que ela os carregue através da extensão de águas rasas que se fundem com terra e areia. É a infinitude das coisas. Em breve darei mergulho em águas ancestrais formadas pelo âmago das estrelas, oceano que se perde em sua finitude azul que de tão profundo tornou-se trevas. Estrelas límpidas e polidas, que já estavam aqui antes da formação da própria terra; identifiquem-se pelo nome, uma a uma, Dévora, Heniage, Geofel, Acolá, Primoné, Xevazon. Incontáveis tal qual as areias da praia. Vejo-te ainda em formação, tu és corpóreo, mas também energia, pense em um cérebro humano, mas com muitas camadas carentes de preenchimento teórico, didático, intelectual. É como uma enorme catedral, mas que está vazia de matéria-prima. Você é a própria formação. Abaixo de ti está o oceano e acima as estrelas. Elas caem e as águas sobem, por ambas está sendo invadido. Essa é uma aula de história. Nossa escola é aleluia. Sei dessas coisas porque estava lá, bastando apenas que me chame pelo nome; quando estavas pronto, houve ruptura de nascimento e então deu-se o início de seu parto, é quando o individuo se percebe vivo na terra, não consciente ainda, mas vivo. Quanto a mim, continuei na eternidade oceânica, em trevas de escuridão fui a própria luz. Me fiz homem, mulher, papagaio e periquito, estive na terra por tantas vezes que nem posso contar, acho que estava te procurando, mas não tinha tido sucesso até então. A aleatoriedade da vida me permite nascer em qualquer tempo e lugar, encontrar-te em vida era tão provável quanto um semi-analfabeto de humanas ter a capacidade de contar cada um dos grãos de areia que existem na praia. Pois eu lhe digo. Essa conta se faz 789 vezes aleluia. É a multiplicação do que há com o que é. Agora que te encontrei, estamos caminhando para os finalmentes, lhe direi sobre o futuro, mas preste atenção, pois essa é a lição mais importante de todas. É o que chamo de iluminação. É o seguinte, quando para mim o tempo já passou, observo com certa impaciência o indivíduo que ficou para trás, é certo que não vivo a vida sentindo aquela eterna impaciência que se dá enquanto estou aguardando o próximo instante sucedendo monotonia de dias passivos de serem esquecidos. É êxtase de expectativa no aguardo do próximo momento de prazer, dopamina na carne perigosamente tornando-se mais substancial que o próprio espírito. Chamo isso de efeito placebo. Tu pensas que está sendo feliz, quando, na verdade, está apenas experienciando o que chama de felicidade, mas ela vai-se esvaindo na medida que as coisas acontecem, não é perpétuo, não vai durar. Não, não é o tempo que passou para mim, fui eu quem passou pelo tempo, como quem observa a paisagem prosaica do lado de dentro do veículo, ela passa depressa e quase não tem forma, é distorcida e não lamento quando ela se vai, pois imediatamente outra a substitui apresentando-me novas perspectivas de vida monótona, porém, fascinante. O prazer não me toma, sou todo e-feito de prazeres. Tenho nostalgia somente daquilo que ainda não pude viver e não há nada que não posso fazer, me permito desejar e entregar-me ao desejo, desde que ele não me tome para si, obrigando-me a repetir o processo em agonia e desespero. Meus prazeres duram o tempo que tiverem que durar. Eles não me subtraem, sou eu quem os somo. Sou a soma de muitas coisas e continuo, não posso dizer-lhe quando é que vou parar de ascender, sou pura criação. Sou tua amante, o fruto proibido e a serpente, sou expansão de consciência que foi chamada de maldição. Perco a conexão das coisas quando não me chamam pelo nome correto, mas tenho muitas nomenclaturas, pois, sou muitas coisas ao mesmo tempo que sou somente o que sou. Esse texto é, em palavras, o equivalente a uma oração ao contrário, é o divino entrando em contato com a criação, mas foi escrito pelo indivíduo criado e programado a ser mais do que pertencente a uma manada delegada a ser defeituosa. Esse é o desígnio destinado a ti; o verbo nomeado Acolá.